Carro com 699 km/l ganha maratona de economia no Rio

O clima está fervendo no cais do Porto do Rio de Janeiro, onde a emoção da competição se mistura com a brisa fresca da Baía de Guanabara. Nesse cenário, Ana Beatriz Rodriguez, uma jovem de 20 anos e estudante de Engenharia Mecânica, brilha ao pilotar um monoposto que ela mesma ajudou a construir. O traçado da pista é bem simples: duas retas paralelas e alguns hairpins, mas a experiência ao volante é intensa.

"O conforto não é o ponto forte, mas dá pra aguentar", ela comenta, enquanto se prepara para mais uma volta. O calor é feroz, ainda mais com o macacão e o capacete. Quem já passou um dia quente dentro de um carro sabe como isso é desafiador.

A corrida pela eficiência

Estamos na Shell Eco-marathon, uma competição que não busca quem cruza a linha de chegada primeiro, mas sim quem consegue rodar mais longe com a menor quantidade de energia. A média de velocidade dos participantes? Por volta de 30 km/h, o foco aqui é a eficiência.

A competição começou em 1939, dependendo de engenhosidade e atenção aos detalhes. Um engenheiro, Bob Greenshields, desafiou um colega a ver quem rodava mais com um galão de gasolina. O resultado? 20,8 km/l, enquanto a maioria dos carros da época mal chegava a 5 km/l.

A velocidade e a ciência

O que torna a maratona realmente interessante é a combinação de engenharia e estratégia. Os carros devem completar dez voltas sem parar, e cada equipe tem seis tentativas. O segredo é encontrar o equilíbrio entre acelerar e aproveitar a inércia, o famoso “coasting”. É uma dança entre acelerar para obter velocidade e soltar o pé do acelerador para deslizar e economizar combustível.

"Essa simulação é crucial. Você tem que planejar cada movimento", explica Norman Koch, o diretor do evento. Os alunos utilizam softwares para descobrir a melhor velocidade em cada trecho da pista. Quem dirige em estradas conhece bem essa dança de acelerar e frear.

Protótipos que desafiam a gravidade

Os veículos são divididos em duas classes: Protótipos e Conceitos Urbanos. Os primeiros são triciclos ultraleves, projetados para eliminar desperdício energético. Imagine um carro que pesa entre 35 e 50 kg, feito com materiais como fibra de carbono e alumínio. O protótipo mais leve que já competiu pesava apenas 23,8 kg e conseguia fazer mais de 3.000 km/l em situações ideais.

Por que tanta atenção ao peso? Com cada quilograma a menos, há um ganho significativo na eficiência. Para se ter uma ideia, em 2009, uma equipe francesa chegou a marcar incríveis 3.771 km/l!

Combustão ou elétricos?

Desde 2019, a competição acontece em um circuito plano e no nível do mar, o que ajuda a simplificar as medições. Os protótipos a gasolina utilizam motores monocilíndricos de 50 cm³, frequentemente derivados de cortadores de grama. Já nos elétricos, a simplicidade de ligar e desligar os motores proporciona um controle imbatível e muitas vezes os motores estão instalados diretamente nas rodas.

Enquanto os elétricos deslizam em silêncio, os carros a combustão fazem barulho, como um ciclomotor acelerando.

Um tanque de mililitros

Os detalhes entram em cena na hora da inspeção: cada carro passa por um rigoroso controle de mais de 100 pontos. E o que mais impressiona é que, em condições ideais, algumas equipes gastam apenas uma colher de chá de gasolina para percorrer longas distâncias. A equipe Drop Team, por exemplo, conseguiu usar apenas 12,2 ml de gasolina para completar suas voltas.

Novas tecnologias no futuro automotivo

A Shell Eco-marathon não é só uma competição; é um laboratório de inovações tecnológicas. Muitos conceitos que hoje vemos nas ruas, como o sistema start-stop, já eram testados nos protótipos da maratona. Os estudantes trabalham em equipe, colocando em prática não apenas a Engenharia, mas diversas áreas do conhecimento. O evento se transforma em uma experiência de aprendizado e colaboração, muito além das salas de aula.

Neste ano, a equipe Milhagem da UFMG e a Drop Team do IFRS brilharam, mostrando que a nova geração de engenheiros finalmente está pronta para encarar os desafios do futuro automotivo.