Economia solidária apoia autonomia e renda de mulheres negras no RS

Mulheres negras no Rio Grande do Sul se unem para enfrentar desigualdades por meio da economia solidária, inspiradas pelo conceito africano de Ubuntu, que significa “eu sou porque nós somos”. Grupos como a Rede Ubuntu e o Fórum Estadual das Mulheres Negras da Economia Popular Solidária (Fespope) têm promovido alternativas que garantem renda e autonomia, além de combate às injustiças sociais.

A Rede Ubuntu, explicada por Gilciane Neves, conhecida como Gil, foi criada com o objetivo de apoiar empreendimentos de mulheres negras e comunidades periféricas. Gil destaca que a rede é um espaço de colaboração e troca de conhecimentos, ajudando as participantes a terem acesso a mercados e a vender seus produtos diretamente, sem intermediários. Muitas mulheres conseguiram complementar ou garantir a renda familiar por meio de feiras e ações coletivas.

### Desigualdade no Mercado de Trabalho

Estudos mostram que mulheres negras enfrentam desigualdades salariais significativas. Atualmente, 24 milhões de lares são chefiados por mulheres negras, que ganham em média 53% menos que homens brancos. Isso equivale a uma perda anual de aproximadamente R$ 30 mil. Para mulheres com ensino superior, a diferença chega a R$ 58 mil por ano. Além disso, 39% das trabalhadoras negras estão em empregos informais, sem garantia de direitos trabalhistas.

### Economia Solidária como Estratégia

Em um cenário desafiador, a economia solidária se mostra essencial para garantir renda e sustentar famílias. O Dia Nacional da Economia Solidária, celebrado em 15 de dezembro, e a Política Nacional de Economia Solidária, estabelecida pela Lei nº 15.068/2024, visam promover o acesso ao crédito e apoiar grupos e cooperativas.

Pesquisa revela que 80% das mulheres envolvidas na economia solidária são as principais responsáveis pela renda de suas famílias. Em 2020, 61% delas eram negras, e segundo o Sebrae, mulheres negras representam 24% dos empreendedores no país. O Manifesto Econômico da Marcha das Mulheres Negras defende maior apoio ao empreendedorismo negro e à economia solidária.

### Rede Ubuntu Durante a Pandemia

Durante a Covid-19, a Rede Ubuntu foi crucial para ajudar a manter a renda de muitas famílias. Com as feiras presenciais fechadas, as mulheres organizaram feira virtuais e vendas pelas redes sociais. Gil observa que a rede não é apenas um canal de vendas, mas um espaço de apoio emocional e formação.

### Autonomia Econômica como Libertação

Gil enfatiza que a economia solidária contribui para a autonomia das mulheres negras, trazendo independência e dignidade. Essa autonomia financeira se torna uma forma de proteção contra relações abusivas e fortalece a autoestima. Segundo ela, a verdadeira emancipação das mulheres está atrelada à sua independência econômica.

### Experiências e Lutas no Empreendedorismo

A trajetória de Gil na economia solidária começou em 2002, quando se uniu a um grupo de mulheres na periferia de Porto Alegre para criar uma feira de economia popular solidária. Desde então, ela se dedicou à organização coletiva como uma forma de mudar sua realidade e a de suas filhas.

O Fespope foi criado como um espaço de articulação política para mulheres negras de diferentes regiões, focando na valorização do trabalho delas e na defesa de direitos. Atualmente, reúne cerca de 60 mulheres e mantém uma loja colaborativa no centro da capital gaúcha.

### Desafios e Oportunidades

Apesar dos avanços, as mulheres negras ainda enfrentam dificuldades, como o acesso limitado a crédito e políticas públicas que não atendem adequadamente suas necessidades. O projeto Economia Popular Solidária com Mulheres Negras busca fortalecer o protagonismo econômico dessas mulheres, oferecendo treinamento e acesso a materiais necessários para suas atividades.

Thayna Brasil, empreendedora da iniciativa Kuumba & Gestão, aponta que o empreendedorismo feminino entre mulheres negras em seu estado ainda é subvalorizado. Ela acredita que, apesar de algumas conquistas, o racismo estrutural e a falta de suporte para essas mulheres dificultam suas jornadas. Para Thayna, a Economia Popular Solidária representa uma abordagem que busca humanizar o trabalho e promover a dignidade.

A economia solidária é vista por ela como um modelo que valoriza a coletividade e a troca de conhecimentos, permitindo que mulheres negras se sintam apoiadas em suas trajetórias. Essa união é fundamental para enfrentar os desafios diários e garantir um espaço de voz e de crescimento.

### Conclusão

A trajetória das mulheres negras no Rio Grande do Sul destaca a importância da economia solidária como uma ferramenta de resistência e libertação. Através da criação de redes de apoio e a valorização do trabalho coletivo, elas demonstram que a luta por autonomia econômica é um caminho crucial para enfrentar desigualdades e construir um futuro mais justo.