Fotografia antiga da cidade histórica de Ouro Preto, em Minas Gerais

Patrimônios da Humanidade no Brasil: lugares reconhecidos pela Unesco

Em 1980, Ouro Preto se tornou o primeiro lugar do Brasil a entrar na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco. A cidade mineira de ladeiras íngremes e igrejas barrocas abriu caminho para uma lista que hoje vai do conjunto modernista de Brasília às dunas maranhenses. Curiosamente, muitos brasileiros moram a poucas horas de um desses lugares e não sabem do título.

O reconhecimento exige que o bem tenha “valor universal excepcional”, isto é, importância que ultrapasse as fronteiras do país. O governo apresenta uma candidatura, órgãos técnicos a avaliam e o Comitê do Patrimônio Mundial decide. Depois disso, o país assume o compromisso de conservar o local. A lista recebe novidades periodicamente, de modo que o site da Unesco é a referência para conferir a situação atual.

Cidades históricas e arquitetura colonial

Esse é o maior grupo brasileiro. Reúne centros que preservam a arquitetura da colonização portuguesa.

  • Ouro Preto (MG), 1980: antiga Vila Rica, foi o centro da exploração do ouro no século 18 e palco da Inconfidência Mineira.
  • Olinda (PE), 1982: fundada no século 16, tem igrejas e sobrados em ladeiras com vista para o mar.
  • Salvador (BA), 1985: o centro histórico, com o Pelourinho, foi a primeira capital do Brasil.
  • São Luís (MA), 1997: famosa pelos casarões cobertos de azulejos portugueses, é um exemplo do traçado urbano colonial.
  • Diamantina (MG), 1999: vila do ciclo dos diamantes, encravada na serra, preserva um conjunto adaptado ao relevo acidentado.
  • Cidade de Goiás (GO), 2001: antiga capital goiana, mostra como a colonização chegou ao interior do continente. Foi lá que viveu a poeta Cora Coralina.
  • Praça de São Francisco, em São Cristóvão (SE), 2010: conjunto urbano que reúne a arquitetura colonial portuguesa e a influência do período da União Ibérica.

Monumentos e sítios culturais

Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas (MG), 1985

As estátuas dos doze profetas em pedra-sabão, esculpidas por Aleijadinho no adro do santuário, e as capelas dos Passos, com figuras de madeira, formam um dos maiores legados do barroco no país.

Missões Jesuíticas Guarani, 1983

O reconhecimento é compartilhado com a Argentina. No Brasil, o sítio protegido é o de São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, com as ruínas de uma das reduções erguidas pelos jesuítas junto aos guaranis nos séculos 17 e 18.

Parque Nacional Serra da Capivara (PI), 1991

No sudeste do Piauí, abriga milhares de pinturas rupestres, um conjunto extraordinário da arte pré-histórica nas Américas. A arqueóloga Niède Guidon foi a principal figura na pesquisa e na defesa da área, e o local é visita obrigatória para quem se interessa pela presença humana antiga no continente.

Sítio Arqueológico Cais do Valongo, Rio de Janeiro (RJ), 2017

Na zona portuária do Rio, o cais recebeu grande número de africanos escravizados no século 19 e foi considerado o principal ponto de desembarque desse comércio nas Américas. Escondido por aterros, foi redescoberto em escavações realizadas a partir de 2011. Seu valor é o de um lugar de memória, para lembrar uma tragédia histórica.

Arquitetura moderna e paisagens urbanas

Brasília (DF), 1987

Inaugurada em 1960 e reconhecida menos de 30 anos depois, é um caso raro de cidade do século 20 na lista. O título protege o Plano Piloto de Lúcio Costa, com as edificações de Oscar Niemeyer e o paisagismo que acompanha as superquadras e os eixos.

Rio de Janeiro: paisagens cariocas entre a montanha e o mar, 2012

Em vez de um prédio, o reconhecimento valorizou a relação entre natureza e cidade, abrangendo pontos como o Pão de Açúcar, o Corcovado, a Floresta da Tijuca, o Jardim Botânico e a orla de Copacabana.

Conjunto Moderno da Pampulha, Belo Horizonte (MG), 2016

Criado nos anos 1940 ao redor de uma lagoa artificial, reúne obras de Niemeyer, jardins de Roberto Burle Marx e obras de Candido Portinari. Essa combinação antecipou muito do que depois aparece em Brasília.

Sítio Roberto Burle Marx, Rio de Janeiro (RJ), 2021

Em Barra de Guaratiba, na zona oeste, a antiga propriedade do paisagista reúne coleção de plantas tropicais e foi um laboratório de seu trabalho.

Áreas naturais

O Brasil tem também vários bens naturais, relacionados a diferentes biomas. Quem quiser conhecer melhor essas paisagens pode ler nosso texto sobre os biomas brasileiros.

  • Parque Nacional do Iguaçu (PR), 1986: protege o lado brasileiro das cataratas, em fronteira com a Argentina, que tem um parque próprio também reconhecido.
  • Reservas da Mata Atlântica do Sudeste (SP e PR), 1999: áreas que protegem um dos trechos mais conservados do bioma.
  • Reservas da Costa do Descobrimento (BA e ES), 1999: outro conjunto de Mata Atlântica, em região de alta biodiversidade.
  • Complexo de Conservação da Amazônia Central (AM), 2000: reconhecido originalmente com o Parque Nacional do Jaú e ampliado em 2003.
  • Área de Conservação do Pantanal (MT e MS), 2000: protege parte da grande planície alagável.
  • Chapada dos Veadeiros e Parque Nacional das Emas (GO), 2001: áreas protegidas de Cerrado, um dos biomas mais ameaçados do país.
  • Ilhas Atlânticas Brasileiras, Fernando de Noronha e Atol das Rocas (PE e RN), 2001: importantes para a reprodução de aves, tartarugas e tubarões.
  • Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (MA), 2024: dunas brancas com lagoas de água da chuva que se formam sazonalmente.
  • Parque Nacional Cavernas do Peruaçu (MG), 2025: cânion e cavernas no norte de Minas Gerais, primeiro bem natural mineiro reconhecido pela Unesco.

Um caso misto

Paraty e Ilha Grande (RJ), 2019, combina cultura e natureza: o centro histórico de Paraty, um dos portos do Caminho do Ouro, e áreas de Mata Atlântica nas proximidades, incluindo a Baía da Ilha Grande. Foi o primeiro bem misto do Brasil.

O que é o patrimônio imaterial

Além dos lugares, a Unesco tem outra lista, voltada para manifestações vivas, como saberes e celebrações. Exemplos brasileiros bem conhecidos são:

  • Samba de roda do Recôncavo Baiano
  • Arte Kusiwa dos povos Wajãpi, do Amapá
  • Frevo, em Pernambuco
  • Círio de Nazaré, em Belém
  • Roda de capoeira
  • Complexo do Bumba Meu Boi do Maranhão

Perguntas frequentes

Ser Patrimônio da Humanidade traz dinheiro da Unesco?

Não automaticamente. O título é um reconhecimento, e a conservação cabe sobretudo ao país, aos estados e aos municípios. Há um fundo internacional para casos específicos, mas ele não mantém os bens no dia a dia. O efeito mais direto é a visibilidade, que atrai turismo e apoios.

Um lugar pode perder o título?

Pode, embora seja raro. Quando há ameaça grave, o bem pode entrar na Lista do Patrimônio Mundial em Perigo, e, em casos extremos, ser retirado da lista. Já aconteceu com locais de outros países. Por isso, a pressão por obras mal planejadas ou por turismo descontrolado é levada a sério.

Qual a diferença entre o tombamento do Iphan e o título da Unesco?

O tombamento é um instrumento jurídico brasileiro, feito pelo Iphan ou por órgãos estaduais e municipais, que protege o bem por lei. O título da Unesco é um reconhecimento internacional. Muitos bens têm os dois, e a maior parte da proteção concreta vem da legislação nacional.

Como planejar uma visita sem prejudicar o local?

Consulte os sites oficiais dos parques e dos órgãos de cultura antes de ir, pois alguns lugares limitam visitantes ou exigem guias credenciados. Em Fernando de Noronha, há regras e taxas de preservação; nos Lençóis Maranhenses, as lagoas dependem das chuvas do primeiro semestre e costumam estar mais cheias por volta do meio do ano. Em sítios arqueológicos, nunca toque nas pinturas, porque a gordura e o suor das mãos danificam o material. Nas cidades históricas, sapatos firmes ajudam mais do que qualquer roteiro nas ladeiras de pedra.