“Se o efeito estufa é natural, por que tanta preocupação?” A dúvida faz sentido, e a resposta está em uma confusão comum. Efeito estufa e mudanças climáticas são usados como sinônimos em conversas, mas não são a mesma coisa. O primeiro é um fenômeno físico que torna a Terra habitável. As segundas são o que acontece quando esse fenômeno é intensificado e o sistema climático sai do equilíbrio em que as sociedades se desenvolveram.
Como o efeito estufa funciona
A luz do Sol atravessa a atmosfera e aquece a superfície do planeta. A Terra aquecida devolve energia para o espaço na forma de radiação infravermelha, que é invisível aos nossos olhos. Certos gases da atmosfera absorvem parte dessa radiação e a reemitem em todas as direções, inclusive de volta para baixo. Com isso, a energia demora mais a escapar, e a superfície fica mais quente.
O nome vem da comparação com as estufas de plantas, embora o mecanismo físico seja um pouco diferente. A ideia geral, de uma camada que retém calor, ajuda a entender.
Sem o efeito estufa natural, a temperatura média da Terra seria de cerca de 18 °C negativos. Com ele, fica próxima de 15 °C. Essa diferença de cerca de 33 °C permite que exista água líquida em abundância e, portanto, vida como a conhecemos.
Os principais gases envolvidos são:
- Vapor d’água: o mais abundante, mas sua quantidade depende principalmente da temperatura do ar.
- Dióxido de carbono (CO2): liberado pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento.
- Metano (CH4): emitido por pecuária, arrozais, aterros e vazamentos de gás.
- Óxido nitroso (N2O): associado principalmente a fertilizantes e dejetos.
- Gases fluorados: usados em refrigeração e em processos industriais.
Onde entram as mudanças climáticas
Mudanças climáticas são alterações de longo prazo na temperatura, nos padrões de chuva, nos ventos e em outras características do clima. Elas podem ter causas naturais, como variações na órbita da Terra, na atividade solar e erupções vulcânicas. Eras glaciais são um exemplo.
O ponto central é que a mudança atual tem uma causa bem identificada. Desde a Revolução Industrial, a humanidade passou a lançar grandes quantidades de gases de efeito estufa na atmosfera. A concentração de CO2, que ficava perto de 280 partes por milhão no período pré-industrial, ultrapassou 420 partes por milhão. Com mais gases retendo energia, o efeito estufa natural se intensificou. Esse acréscimo é muitas vezes chamado de efeito estufa adicional ou antrópico, isto é, causado pela ação humana.
Vale separar os três termos: o efeito estufa é o mecanismo, o aquecimento global é o aumento da temperatura média do planeta, e as mudanças climáticas são o conjunto mais amplo de efeitos, que inclui temperatura, chuvas, gelo, oceanos e eventos extremos.
Uma comparação ajuda. O cobertor em uma noite fria é bem-vindo. O problema começa quando alguém vai empilhando cobertores, um após o outro, sem que se possa tirá-los facilmente. O fenômeno é o mesmo, mas a intensidade muda o resultado.
Como se sabe que a causa é humana
A pergunta merece resposta direta. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que reúne e avalia a produção científica mundial, afirmou em seu relatório de 2021 que é inequívoco que a influência humana aqueceu a atmosfera, o oceano e a terra. O aumento da temperatura média global na década de 2011 a 2020 ficou em torno de 1,1 °C acima do período de 1850 a 1900.
Diferentes linhas de evidência apontam para a mesma conclusão:
- Física conhecida há muito tempo. No século 19, cientistas como Eunice Foote e John Tyndall mostraram que certos gases absorvem calor, e Svante Arrhenius estimou, em 1896, o efeito do CO2 na temperatura.
- Assinatura química. O carbono de combustíveis fósseis tem composição isotópica distinta, e essa marca aparece no CO2 acumulado na atmosfera.
- Padrão do aquecimento. A camada mais baixa da atmosfera aquece enquanto a estratosfera esfria. Isso combina com mais gases de efeito estufa, e não com um Sol mais forte, que aqueceria todas as camadas.
- Registros do passado. Bolhas de ar presas no gelo antártico mostram que a concentração atual de CO2 está acima de tudo o que foi registrado em centenas de milhares de anos.
Variações naturais do Sol e de vulcões foram medidas e não explicam o aumento observado.
Tempo não é clima
Um dos enganos mais frequentes aparece em toda onda de frio. Alguém pergunta onde está o aquecimento global quando a temperatura cai. O erro está em confundir tempo com clima.
Tempo é o estado da atmosfera em um lugar e em um momento: se vai chover amanhã em Curitiba, se faz calor hoje em Cuiabá. Clima é o padrão desses estados ao longo de décadas, geralmente 30 anos ou mais.
Uma frase conhecida resume: o clima é o que você espera, e o tempo é o que você recebe. Um dia frio não desmente o aquecimento, assim como um dia quente não o comprova. O que indica a tendência é a média de muitos anos em todo o planeta. Dias frios continuam existindo em um mundo mais quente, apenas tendem a ficar menos frequentes, enquanto ondas de calor se tornam mais frequentes e intensas.
Fenômenos que costumam ser misturados
Alguns assuntos entram na mesma conversa, mas são outra coisa.
Buraco na camada de ozônio. O ozônio da estratosfera filtra radiação ultravioleta. O dano foi causado por gases como os CFCs, usados em refrigeradores e aerossóis. É um problema diferente, e o Protocolo de Montreal, de 1987, conseguiu reduzir esses gases, com sinais de recuperação da camada.
Poluição do ar. Fumaça e fuligem nas cidades afetam a saúde e têm origem parecida, mas são poluentes de efeito local e rápido. Reduzir os combustíveis fósseis costuma ajudar nas duas frentes.
El Niño e La Niña. São oscilações naturais do oceano Pacífico, que mudam as chuvas no Brasil. Secas no Nordeste e chuvas no Sul são exemplos associados ao El Niño. Eles não foram criados pelas mudanças climáticas, mas ocorrem em um planeta mais quente, o que pode agravar os seus efeitos.
O que as mudanças climáticas fazem no Brasil
O país é vulnerável de maneiras diferentes em cada região, como mostra a diversidade dos biomas brasileiros. Projeções e observações apontam para maior risco de chuvas intensas em áreas do Sul e do Sudeste, com enchentes e deslizamentos, e de secas mais severas em partes do Nordeste, da Amazônia e do Centro-Oeste. A elevação do nível do mar ameaça cidades costeiras. Na agricultura, safras e janelas de plantio ficam mais incertas. Na energia, a dependência de hidrelétricas torna o sistema sensível a períodos sem chuva.
Quando um evento extremo ocorre, cientistas usam estudos de atribuição para estimar quanto o aquecimento aumentou sua probabilidade ou intensidade. Nem todo evento pode ser explicado por um único fator, mas a tendência geral é bem documentada.
Se a causa é conhecida, o que muda?
A boa notícia da explicação científica é que o aquecimento depende de quanto ainda será emitido. O Acordo de Paris, de 2015, estabeleceu o objetivo de manter o aumento bem abaixo de 2 °C e buscar limitá-lo a 1,5 °C em relação aos níveis pré-industriais. Cada fração de grau evitada reduz riscos.
Soluções combinam mitigação, que reduz emissões, com adaptação, que prepara a sociedade para o que já está em curso. As principais medidas de mitigação são a redução do desmatamento, a expansão de energias renováveis, a eficiência energética e o transporte coletivo. Na adaptação, entram obras de drenagem, sistemas de alerta, proteção de encostas e mais áreas verdes nas cidades.
No plano individual, as escolhas que mais pesam costumam ser as ligadas a transporte, alimentação e consumo. No Brasil, onde o desmatamento responde por uma fatia grande das emissões, a proteção das florestas tem papel central.
