
Trabalhadores que optam por retirar parte do saldo anualmente devem ficar atentos às restrições em caso de demissão sem justa causa.
O fundo de garantia é, para muitos brasileiros, a maior reserva financeira guardada ao longo de uma vida de trabalho. Entre as formas de acessar esse dinheiro, o saque-aniversário se tornou uma das opções mais populares nos últimos anos. A ideia é permitir que o trabalhador retire uma parte do seu saldo todos os anos, no mês do seu aniversário, em vez de esperar por uma demissão ou pela aposentadoria.
No entanto, essa escolha não é apenas uma “liberação de dinheiro extra”; ela envolve uma troca importante que nem todo mundo avalia com calma na hora de clicar no botão do aplicativo. Ao entrar no saque-aniversário, você abre mão do direito de sacar o valor total da conta se for mandado embora sem justa causa. É uma decisão que mexe diretamente com a sua rede de segurança em momentos de crise.
A discussão sobre o futuro dessa modalidade está sempre em pauta no governo. Existem propostas para mudar a forma como o trabalhador acessa esses valores, especialmente para permitir que, mesmo quem optou pelo saque anual, consiga retirar o saldo em caso de demissão. Enquanto essas mudanças não viram lei, é fundamental entender as regras que estão valendo agora para não ser pego de surpresa.
Muitas pessoas utilizam esse valor anual para pagar dívidas, fazer pequenas reformas ou até investir em algo próprio. Como o dinheiro já é seu, ter a liberdade de usá-lo sem depender de uma demissão parece muito atrativo. Mas, como tudo na economia, existe um custo de oportunidade que precisa ser colocado na ponta do lápis, considerando a estabilidade no emprego atual.
Abaixo, vamos detalhar os pontos positivos e negativos dessa escolha, além de explicar como funciona o cálculo do valor que você pode receber. Saber exatamente o que você está assinando digitalmente é o primeiro passo para uma vida financeira mais saudável e sem sustos.
As regras de carência e a multa rescisória
O ponto que gera mais confusão é o que acontece na hora da demissão. Se você estiver no modo saque-aniversário e for demitido, você continua tendo direito a receber a multa de 40% paga pela empresa. O que fica “preso” na conta é o saldo principal, que só poderá ser retirado em parcelas anuais ou em situações específicas, como doenças graves ou compra da casa própria.
Outro detalhe importante é a carência para voltar ao modelo antigo. Se você se arrepender e quiser retornar para o saque-rescisão, terá que esperar 24 meses após a solicitação para que a mudança passe a valer. Durante esse período de dois anos, você ainda segue as regras do saque-aniversário. É um compromisso de longo prazo que exige planejamento.
Por isso, o saque-aniversário costuma ser mais indicado para quem tem uma carreira muito estável, como funcionários públicos ou profissionais com muitos anos de casa em empresas sólidas. Para quem está em um setor com muita rotatividade, manter o acesso ao saldo total em caso de demissão pode ser uma estratégia de sobrevivência financeira muito mais eficiente.
Como é feito o cálculo do valor anual
Muita gente pensa que pode sacar todo o dinheiro da conta no aniversário, mas não é bem assim. O valor liberado é uma porcentagem do que você tem acumulado, somada a uma parcela fixa. Quanto menor o saldo na conta, maior é a porcentagem que você pode retirar. Por exemplo, contas com até 500 reais permitem o saque de 50% do valor total.
Conforme o saldo aumenta, a porcentagem diminui, mas a parcela fixa aumenta. Se você tem 20 mil reais no fundo, a porcentagem permitida cai bastante, mas o valor fixo somado garante que a quantia final ainda seja significativa. É uma tabela progressiva criada para que o fundo não seja esvaziado de uma vez só, mantendo a sustentabilidade do sistema.
Consultar o valor exato que você receberia é muito simples pelo aplicativo do FGTS. Lá, existe um simulador que mostra o valor previsto para o próximo saque com base no seu saldo atual. Isso ajuda a planejar se o dinheiro que vai entrar será suficiente para o objetivo que você tem em mente, como quitar uma parcela de financiamento ou limpar o nome.
Antecipação do saque-aniversário: vale a pena?
Uma prática que se tornou febre nos bancos é a antecipação do saque-aniversário. Funciona como um empréstimo: o banco te adianta o valor de vários anos de saques de uma só vez e, em troca, retém o saldo da sua conta do FGTS como garantia. As taxas de juros costumam ser menores do que as do cartão de crédito ou cheque especial, mas ainda assim é uma dívida.
Essa opção pode ser uma saída de emergência para quem precisa de dinheiro rápido para resolver um problema grave de saúde ou uma dívida com juros altíssimos. No entanto, é preciso ter cautela, pois você estará consumindo o seu patrimônio futuro. Ao antecipar cinco ou sete anos de saques, você ficará todo esse tempo sem receber nada no mês do seu aniversário.
Antes de contratar, verifique o Custo Efetivo Total (CET) da operação. Às vezes, o que parece um bom negócio acaba saindo caro se considerarmos que o dinheiro do FGTS, embora renda pouco, é uma reserva de segurança para a sua aposentadoria. Use essa ferramenta com moderação e apenas quando as outras opções de crédito forem muito mais caras ou inacessíveis.
