Um ano após assassinato de líder do MST, dois seguem foragidos

Neste sábado, dia 10, completa-se um ano do assassinato de dois membros do Assentamento Olga Benário, vinculado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), localizado em Tremembé, interior de São Paulo. Gleison Barbosa de Carvalho, conhecido como Guegué, de 28 anos, e Valdir do Nascimento, apelidado de Valdirzão, de 52 anos, foram mortos instantaneamente por atiradores que invadiram a área.

O ataque ocorreu por volta das 23h de uma terça-feira, quando, segundo informações do movimento, cerca de 25 homens armados, a bordo de motos e carros, dispararam contra os integrantes do assentamento por aproximadamente três minutos. O ataque deixou ainda seis feridos, incluindo crianças e idosos. Algumas vítimas conseguiram se esconder na vegetação, e uma delas relatou ter ouvido um dos criminosos ordenar: “mata tudo, mata todo mundo”.

### Acusações e Justiça

Em setembro do ano passado, a Justiça decidiu que quatro homens seriam levados a júri popular pelos assassinatos, mas a data do julgamento ainda não foi definida. Os acusados, Antônio Martins dos Santos Filho, conhecido como “Nero do Piseiro”, e Ítalo Rodrigues da Silva, estão presos. Os outros dois suspeitos, Gilson da Silva Santos e Geonatas Martins Bispo, permanecem foragidos. Todos respondem por homicídio qualificado e tentativa de homicídio. Durante o processo, os réus alegaram que foram ao assentamento para tentar solucionar um conflito de forma pacífica, mas a Justiça considerou que as evidências mostram o oposto.

Um quinto suspeito, Geraldo Martins, foi preso em setembro do ano passado, mas ainda não foi incluído entre os réus que irão a júri, pois foi detido após a abertura do processo. No entanto, espera-se que ele também enfrente o júri à medida que o caso avança.

O Ministério Público apresentou, em março do ano passado, uma denúncia afirmando que os assassinatos foram motivados por questões pessoais. A investigação indicou que um dos suspeitos teria invadido um lote do assentamento e, após ser informado de que não poderia ficar, voltou armado, acompanhado de aliados, e disparou contra os moradores.

### Valdirzão: uma liderança histórica

Valdirzão, nascido em Tupi Paulista em 1972, foi uma figura central na luta do MST na região. Ele chegou ao Vale do Paraíba aos 20 anos e participou da primeira ocupação do movimento na área em 1994. Com o passar dos anos, Valdir se tornou uma das principais lideranças, ajudando na organização de vários assentamentos, incluindo o Olga Benário. Ele vivia com sua companheira, quatro filhos e três netos.

Michele Silva, uma das sobreviventes do massacre, relembra a importância de Valdir em sua vida e na de seus filhos. Valdirzão era reconhecido por sua dedicação e contribuição à comunidade, promovendo práticas agroflorestais e ajudando a criar a Cooperativa Rede de Coletores de Sementes do Vale do Paraíba, que apresenta um trabalho coletivo significativo.

O assentamento tem 45 lotes e foi regularizado em 2005. Valdir havia sido designado guardião de uma Casa de Sementes, que estava em construção em seu lote. O massacre aconteceu durante uma vigília de moradores que tentavam impedir uma invasão.

### Um cenário de conflito

A região de Tremembé é marcada por conflitos relacionados à reforma agrária, frequentemente intensificados pela especulação imobiliária. O dirigente nacional do MST, Gilmar Mauro, destacou a pressão sobre os assentamentos, que estão próximos a áreas urbanas, e essa dinâmica gera violências diretas.

O MST associou o ataque à falta de políticas públicas voltadas para a segurança nos assentamentos. O movimento manifestou indignação pela violência e reafirmou que a resposta a esses crimes deve ser a continuidade da luta pela reforma agrária, em vez do silêncio.