Máquina de escrever antiga sobre uma mesa

Crase: quando usar, quando não usar e os testes que resolvem a dúvida

“Fui a padaria.” “Refiro-me à você.” “Pagamento à prazo.” Os três erros aparecem todos os dias em mensagens, placas e até em currículos, e todos nascem da mesma ideia equivocada: a de que a crase é um enfeite colocado sobre o “a” que parece importante.

Crase não é acento. É um fenômeno: a fusão de dois sons iguais. O acento que a indica se chama acento grave, embora o uso tenha consagrado a frase “esse a tem crase”. Na maior parte dos casos, ela surge do encontro da preposição a com o artigo feminino a.

Veja como isso acontece. O verbo “ir” pede a preposição a: quem vai, vai a algum lugar. A palavra “escola” aceita o artigo a: a escola. Juntando tudo: vou + a + a escola = vou à escola. Sem preposição não há crase. Sem artigo também não. Quase toda dúvida se resolve verificando se as duas peças estão presentes.

O teste que resolve a maioria dos casos

Troque a palavra feminina por uma masculina equivalente. Se aparecer ao, a crase existe. Se aparecer só a ou o, ela não existe.

  • Fui à padaria. Fui ao mercado. Crase correta.
  • Conheci a professora. Conheci o professor. Sem crase.
  • Entreguei o livro à diretora. Entreguei o livro ao diretor. Crase correta.
  • Assisti à peça. Assisti ao filme. Crase correta, porque “assistir” no sentido de ver pede preposição.
  • Vi a peça. Vi o filme. Sem crase.

Os dois últimos exemplos mostram que quem decide é a regência do verbo. “Assistir” e “ver” têm sentido parecido, mas só o primeiro exige a preposição.

Para nomes de lugar, use o teste da volta

Com cidades, estados e países, a troca pelo masculino não funciona bem. Use outra frase: se você volta da, vai à. Se volta de, vai a.

  • Volto da Bahia. Vou à Bahia.
  • Volto de Curitiba. Vou a Curitiba.
  • Volto da Argentina. Vou à Argentina.
  • Volto de Portugal. Vou a Portugal.

Atenção a um detalhe: uma cidade acompanhada de característica passa a ter artigo. “Vou a Salvador”, mas “fui à Salvador dos meus avós”. “Vou a Roma”, mas “uma viagem à Roma antiga”.

Quando a crase é obrigatória

Na indicação de horas

Horas determinadas são femininas e recebem crase: “A reunião é às 14h”, “Chegou à 1h da manhã”. O teste aqui é trocar por “meio-dia”: “A reunião é ao meio-dia”.

Para intervalos, combine as palavras: “das 8h às 17h” tem crase. Já “de 8h a 17h” não tem, porque o “de” sem artigo pede o “a” também sem artigo. Não use “das 8h a 17h”, que mistura as duas construções.

Depois de “desde”, “para”, “após” e “entre”, não há crase, porque já existe outra preposição: “desde as 7h”, “após as 20h”, “entre as 9h e as 10h”.

Em expressões femininas

Locuções adverbiais, prepositivas e conjuntivas com palavra feminina recebem acento:

  • Às vezes, às pressas, às claras.
  • À noite, à tarde, à direita, à esquerda.
  • À medida que, à proporção que.
  • À procura de, à custa de, à espera de.
  • À beça, à toa, à vontade.

Observe a diferença de sentido que o acento pode criar. “Saiu às pressas” descreve a forma como saiu. “Lavou à mão” e “lavou a mão” também são coisas bem distintas: na primeira frase, a pessoa usou as mãos para lavar algo; na segunda, ela lavou a própria mão. Essa função de evitar ambiguidade explica também o uso tradicional de “pagamento à vista”.

Quando há a ideia de “à moda de”

Mesmo antes de palavra masculina, a crase aparece se estiver subentendida a expressão “à moda de” ou “à maneira de”: bife à milanesa, filé à parmegiana, gol à Pelé, móveis à Luís XV.

Com demonstrativos e relativos

“Aquele”, “aquela” e “aquilo” começam com a. Se o termo anterior pede preposição, há fusão: “Refiro-me àquele caso”, “Não dei atenção àquilo”. Faça o teste trocando por “este”: “Refiro-me a este caso”.

O relativo “a qual” também funciona: “A empresa à qual enviei o currículo”, já que você envia algo a alguém, ou “ao qual” no masculino: “O banco ao qual enviei”. Falando em currículo, um modelo profissional bem revisado não deve ter erros desse tipo.

Quando a crase é proibida

  • Antes de palavra masculina: andar a pé, carro a álcool, pagamento a prazo.
  • Antes de verbo: começou a chover, estou disposto a ajudar.
  • Antes da maioria dos pronomes: a você, a ela, a mim, a esta, a quem, a alguém, a cada. Pronomes de tratamento como “Vossa Excelência” também rejeitam crase.
  • Antes de “uma” numeral ou artigo: foi a uma festa. A exceção é a hora: à uma da tarde.
  • Entre palavras repetidas: cara a cara, dia a dia, gota a gota, frente a frente.
  • Com “a” no singular antes de plural: enviei o convite a alunas da escola. Se o “a” está no singular e o substantivo no plural, falta o artigo. Com o plural completo, a crase volta: enviei o convite às alunas.
  • Depois de outra preposição: perante a lei, após a aula, desde a infância.
  • Antes de palavra feminina usada de modo geral: não dou atenção a fofocas, ela não fala a estranhos.

Quando a crase é opcional

Há três situações em que os dois usos estão corretos, porque o artigo é facultativo:

  • Antes de pronome possessivo feminino no singular: entreguei a minha mãe ou entreguei à minha mãe.
  • Antes de nome próprio feminino de pessoa: disse a Paula ou disse à Paula. Em geral, usar artigo indica proximidade. Com nomes de personalidades históricas não se usa: dedicou o livro a Anita Garibaldi.
  • Depois de “até”: foi até a praia ou foi até à praia.

Em um texto, escolha um padrão e mantenha.

Os casos especiais que derrubam muita gente

Casa: sem determinação, referindo-se ao próprio lar, não há crase: “Voltei a casa cedo”. Com especificação, há: “Voltei à casa dos meus pais”.

Terra: como oposição a “bordo”, não há crase: “Os marinheiros voltaram a terra”. Como planeta ou terra natal, há: “A nave retornou à Terra”, “Voltou à terra dos avós”.

Distância: sem especificação, a tradição recomenda não usar: “ensino a distância”, “observou a distância”. Com medida, a crase é usada: “ficou à distância de cinco metros”. Há gramáticos que aceitam o acento no primeiro caso para desfazer ambiguidade, mas “educação a distância” é a forma mais encontrada.

Perguntas frequentes

É “à partir de” ou “a partir de”?

Sem crase: “a partir de”. “Partir” é verbo, e não existe crase antes de verbo.

“Devido à” tem crase?

Depende da palavra seguinte. “Devido” pede a preposição a, então: “devido à chuva” (devido ao temporal) leva acento, mas “devido a problemas” não, por estar no plural com “a” no singular.

Como escrever “de segunda a sexta”?

Sem crase, porque não há artigo em “de”. Se você usar “da segunda”, aí sim: “da segunda à sexta”. Mesma lógica das horas.

“Em relação à” tem crase?

Sim, se a palavra seguinte for feminina e aceitar artigo: “em relação à proposta”, e “em relação ao projeto”. O mesmo vale para “com relação à” e “referente à”.

“Às vezes” sempre tem crase?

Com o sentido de “de vez em quando”, sim. Sem acento, “as vezes” é só artigo e substantivo: “Contei as vezes em que ele faltou”.

Crase antes de “Dona” e “Senhora”?

Sim, em geral há artigo: “Entreguei à dona Maria”, “Dirigi-me à senhora”. O teste com “ao senhor” confirma.

Treino rápido

Coloque o acento quando necessário e confira:

  • Fomos a praia a pé. Resposta: fomos à praia a pé.
  • Ela chegou as 9h e saiu as pressas. Resposta: ela chegou às 9h e saiu às pressas.
  • Refiro-me a uma colega. Resposta: sem crase.
  • Comprei a prazo, a vista seria mais caro. Resposta: comprei a prazo, à vista seria mais caro.
  • Vou a Recife e depois a Paraíba. Resposta: vou a Recife e depois à Paraíba.
  • Ficamos cara a cara a noite toda. Resposta: ficamos cara a cara a noite toda, sem crase, porque “a noite toda” não tem preposição aqui.