Moedas sobre um recibo de pagamento

Como sair das dívidas com um plano que cabe na sua renda

Marcos ganha R$ 4.200 líquidos e deve em quatro lugares. Passa o mês pagando um pouco de cada credor, sempre o que está gritando mais alto. Depois de um ano, o saldo total quase não mudou. Marcos não é desorganizado por natureza: ele está pagando sem saber quanto deve, nem quanto cada dívida custa.

A história de Marcos é hipotética, mas o roteiro é comum. Abaixo está um método em sete etapas, usando as dívidas dele como exemplo. A ordem importa, e pular as primeiras etapas é o motivo pelo qual muitos acordos acabam quebrados.

Etapa 1: colocar tudo em uma lista

Reserve uma hora, abra aplicativos de banco, contratos e faturas, e anote cada dívida com quatro informações: credor, saldo atual, juros mensais e parcela. Não use memória nem estimativa.

Para descobrir dívidas esquecidas, consulte o Registrato, um sistema gratuito do Banco Central que mostra operações de crédito em seu nome, com acesso pelo site oficial. Os cadastros de inadimplentes também podem ser consultados gratuitamente em seus canais oficiais.

A lista de Marcos ficou assim:

  • Rotativo do cartão: R$ 3.000, a 12% ao mês.
  • Cheque especial: R$ 800, a 8% ao mês.
  • Crediário de loja: R$ 600, a 6% ao mês.
  • Empréstimo pessoal: R$ 5.000, a 4% ao mês.

Total: R$ 9.400. Marcos jamais tinha visto esse número escrito. E o mais revelador está na conta seguinte: juros mensais de R$ 360, R$ 64, R$ 36 e R$ 200, que somam R$ 660 por mês. Se ele pagasse R$ 660 no total, a dívida simplesmente não diminuiria.

Etapa 2: parar de aumentar o buraco

Nenhum plano funciona enquanto a dívida cresce pela outra ponta. Enquanto durar o acerto, retire o cartão da carteira, tire os dados salvos das lojas online e não aceite novo crédito que não sirva para trocar uma dívida cara por uma barata.

Se o seu cheque especial é usado todo mês, peça ao banco a redução ou o cancelamento do limite assim que conseguir zerá-lo. Tirar a tentação do caminho funciona melhor do que depender apenas da força de vontade.

Etapa 3: descobrir quanto sobra de verdade

Anote renda líquida e todas as despesas dos últimos três meses, incluindo gastos pequenos e variáveis. O número que interessa é quanto sobra depois do essencial: moradia, comida, transporte, luz, água, gás, saúde e educação.

Marcos gasta R$ 3.100 com o essencial e R$ 400 com itens que poderiam ser cortados por um período. Sem o que pode ser cortado, sobram R$ 1.100 por mês para as dívidas. Esse é o seu limite de pagamento e o número que ele vai levar para qualquer negociação. Um orçamento doméstico simples basta para chegar a essa conta.

Se a sobra for zero ou negativa, nenhuma técnica de pagamento resolve. O problema passa a ser aumentar a renda, reduzir um gasto grande, como aluguel ou carro, ou buscar uma renegociação mais profunda, tema da etapa 6.

Etapa 4: proteger o básico antes do resto

Nem toda conta tem a mesma consequência. Antes de mandar dinheiro extra para o cartão, garanta o que mantém sua vida funcionando: aluguel ou prestação da casa, água, luz, comida e transporte para o trabalho. Dívidas com garantia, como financiamento de veículo ou de imóvel, também sobem na fila, porque o atraso pode levar à perda do bem. Pensão alimentícia tem consequências legais próprias e não pode ficar para depois.

Essa ordem não significa ignorar os demais credores. Significa decidir com clareza o que pode esperar uma negociação e o que não pode.

Etapa 5: escolher a ordem de pagamento

Pague o mínimo combinado em todas as dívidas e direcione todo o valor extra para uma só. Há dois critérios conhecidos para escolher qual.

Avalanche: atacar primeiro a dívida com os juros mais altos. Matematicamente, é o caminho mais barato. No caso de Marcos, a primeira seria o rotativo, depois o cheque especial, o crediário e o empréstimo.

Bola de neve: atacar primeiro a dívida de menor saldo. Custa um pouco mais em juros, mas a sensação de eliminar um credor rápido ajuda a manter o ritmo. Marcos começaria pelo crediário de R$ 600.

Quem se motiva com vitórias rápidas tende a se dar melhor na bola de neve. Quem tolera esperar deve preferir a avalanche. Quando a diferença de taxas é muito grande, como no rotativo, a avalanche costuma compensar. Sempre que uma dívida acabar, o valor que ia para ela passa para a próxima, e a velocidade aumenta.

Etapa 6: negociar e trocar dívida cara por barata

Com a lista e o valor disponível em mãos, é hora de falar com os credores. Algumas orientações práticas:

  • Comece propondo o que cabe. Com R$ 1.100 por mês para tudo, Marcos não pode aceitar uma parcela de R$ 900 para um só credor, por mais generoso que pareça o desconto.
  • Pergunte pelo desconto à vista e parcelado. Dívidas mais antigas costumam ter margens maiores, e os valores mudam entre uma campanha e outra.
  • Exija o total por escrito. Valor, número de parcelas, juros, CET e data antes de pagar. Guarde o acordo e os comprovantes.
  • Verifique se o acordo não piora a situação. Parcela baixa com prazo enorme pode custar mais do que você imagina.
  • Compare a substituição da dívida. Se Marcos trocasse os R$ 3.000 do rotativo por um empréstimo a 4% ao mês, o juro no primeiro mês cairia de R$ 360 para R$ 120.

O crédito consignado, para quem tem acesso, costuma ter juros menores. Empréstimo com garantia de imóvel ou veículo também, mas com o risco de perder o bem em caso de atraso, e por isso exige extrema cautela.

Nunca pague valores adiantados para alguém “limpar seu nome” ou liberar um empréstimo. Essa é uma marca comum de golpe. Negocie pelos canais oficiais do credor e confira os dados do boleto antes de pagar.

Quando as dívidas já consomem o básico

A Lei 14.181, de 2021, conhecida como Lei do Superendividamento, alterou o Código de Defesa do Consumidor para proteger quem, de boa-fé, não consegue pagar suas dívidas de consumo sem comprometer o mínimo necessário para viver. Ela prevê um processo de repactuação, com audiência conciliatória reunindo os credores e a elaboração de um plano de pagamento.

Procons, Defensorias Públicas e centros judiciários de solução de conflitos podem orientar sobre esse caminho, conforme a estrutura de cada cidade. Para reclamações contra empresas, a plataforma pública consumidor.gov.br oferece um canal direto. Em causas de valor menor, o Juizado Especial Cível é uma alternativa quando há cobrança indevida.

Etapa 7: montar um escudo para não voltar

Enquanto paga as dívidas, separe um valor pequeno para imprevistos. Pode parecer contraditório guardar dinheiro devendo juros altos, mas sem nenhum colchão o primeiro pneu furado vai parar no cartão, e o ciclo recomeça. Algo como R$ 50 por mês já ajuda a formar um pequeno fundo inicial.

Depois de quitar tudo, não deixe o orçamento absorver o valor liberado. Marcos pagava R$ 1.100 por mês aos credores. Quando a última parcela acabar, se ele continuar transferindo boa parte desse valor para uma conta separada, terá construído uma reserva de emergência sem sentir diferença no padrão de vida que já estava acostumado a manter.

Acompanhe o plano uma vez por mês, atualizando a lista de saldos. Ver o total cair de R$ 9.400 para R$ 7.000, depois para R$ 4.000, ajuda a continuar mesmo nos meses difíceis. Se algo mudar, como uma demissão ou um gasto de saúde, ajuste o plano e volte aos credores antes de atrasar. Quem avisa e propõe costuma ter mais margem do que quem desaparece.

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui orientação individual. Em casos de superendividamento ou cobrança abusiva, procure o Procon, a Defensoria Pública ou um advogado.