Caneta-tinteiro escrevendo em uma folha pautada

Como escrever uma boa redação dissertativa, do tema ao fechamento

O erro mais comum em redação dissertativa aparece antes da primeira linha. O estudante lê o tema, sente que tem alguma coisa a dizer e começa a escrever. Na linha 12 percebe que repetiu a mesma ideia com outras palavras, e na linha 20 não sabe como terminar. O problema quase nunca é falta de vocabulário. É falta de um plano.

Dissertar é defender um ponto de vista com razões. Quem lê precisa terminar o texto sabendo o que você pensa e por que pensa assim. Tudo o que segue parte dessa ideia simples, e vale tanto para um vestibular quanto para uma prova de concurso ou um trabalho da escola.

Antes de escrever, separe tema de assunto

Assunto é amplo: alimentação. Tema é um recorte: o desperdício de alimentos em um país onde ainda há gente sem comida suficiente na mesa. Quando a proposta traz um recorte e o texto fala do assunto geral, a nota cai, porque a redação tangencia o que foi pedido.

Um teste rápido ajuda. Sublinhe na proposta as palavras que limitam o tema, como “no Brasil”, “entre jovens”, “os desafios para” ou “o impacto de”. Se o seu plano funcionaria igualmente sem essas palavras, ele ainda está amplo demais.

Depois, leia os textos de apoio procurando dados e pontos de vista, não frases para copiar. Eles servem para orientar a reflexão. Trechos transcritos não mostram que você pensou sobre o tema, e muitas bancas desconsideram cópias na contagem de linhas.

Formule a tese em uma frase

A tese é a resposta à pergunta escondida no tema. Se o tema é o desperdício de alimentos, a pergunta poderia ser: por que tanta comida se perde no Brasil? Uma tese possível: o desperdício persiste porque há falhas no transporte e no armazenamento e porque o consumidor foi acostumado a descartar o que não parece perfeito.

Repare que essa frase já entrega dois caminhos, um para cada parágrafo de desenvolvimento. É o que os professores chamam de projeto de texto. Compare com uma tese fraca: “o desperdício é um grande problema”. Isso é uma constatação. Ninguém discorda, e nada ali obriga o texto a provar alguma coisa.

Escreva a tese no rascunho antes de qualquer outra coisa. Se ela não couber em uma frase clara, a ideia ainda não está pronta.

A estrutura de quatro parágrafos

Não existe fórmula obrigatória, mas quatro parágrafos resolvem bem a maioria das provas de 25 a 30 linhas:

  • Introdução, com cerca de 5 linhas: apresenta o tema e termina com a tese.
  • Primeiro desenvolvimento, com cerca de 8 linhas: defende a primeira razão.
  • Segundo desenvolvimento, com cerca de 8 linhas: defende a segunda razão.
  • Fechamento, com cerca de 6 linhas: retoma a tese e, quando a prova pede, propõe uma solução.

Dividir o espaço antes de começar evita o clássico fechamento espremido em duas linhas porque a introdução consumiu dez.

Como abrir sem soar genérico

Começar com “Desde os primórdios da humanidade” ou “Nos dias atuais” gasta linha e não diz nada. Uma abertura melhor faz uma destas coisas:

  • Apresenta um fato ou uma referência ligada diretamente ao tema.
  • Mostra um contraste, como um país que produz muito alimento e ainda convive com a fome.
  • Cita um direito garantido em lei e aponta a distância entre a norma e a realidade.

Exemplo de introdução para o tema acima:

O artigo 6º da Constituição Federal inclui a alimentação entre os direitos sociais. Na prática, porém, enquanto famílias brasileiras enfrentam a falta de comida, toneladas de produtos são descartadas entre a lavoura e o prato. Esse contraste persiste por causa de falhas no transporte e no armazenamento e de um padrão de consumo que rejeita o alimento imperfeito.

Em três períodos, o texto apresentou uma referência, criou um conflito e anunciou a tese.

Como montar um parágrafo de argumento

Um parágrafo dissertativo costuma ter três movimentos: afirma, explica e comprova. A primeira frase, chamada tópico frasal, diz qual é a ideia. A seguinte explica como isso acontece. Depois vem um exemplo, um dado seguro ou uma referência. Por fim, uma frase liga aquilo à tese.

Veja a diferença na prática. Versão fraca: “O transporte é ruim e isso causa desperdício. Muitos alimentos se perdem. Isso é muito grave e precisa mudar.”

Versão desenvolvida: “A primeira causa do problema está na logística. Como grande parte da produção percorre longas distâncias por estradas, frutas e hortaliças sofrem impacto e calor antes de chegar aos centros de distribuição. Um caminhão de tomates sem proteção adequada pode descarregar uma parcela da carga já sem condições de venda. Assim, parte do desperdício acontece antes mesmo de o produto chegar às prateleiras.”

A segunda versão não usa palavras difíceis. Ela apenas explica o mecanismo e mostra um caso concreto.

Repertório que funciona

Repertório é o conhecimento de fora da prova que você usa para sustentar o argumento: um conceito de geografia, um fato histórico, um livro, um artigo da Constituição. O critério é a pertinência. Citar um filósofo em uma frase solta, sem relação real com o argumento, é pior do que não citar.

Duas regras práticas evitam problemas. Use apenas o que você domina, porque um autor citado errado enfraquece o texto. E nunca invente números: “segundo pesquisas” sem fonte não convence ninguém, e uma estatística falsa pode comprometer a credibilidade da redação. Na dúvida, descreva o fenômeno sem o dado.

Quem quer construir esse repertório aos poucos pode reservar um caderno para anotar conceitos das aulas com um exemplo de uso. As técnicas de estudo com revisão ativa ajudam a manter essas referências disponíveis no dia da prova.

Coesão: a costura entre as ideias

Conectivos não são enfeite. Cada um indica uma relação lógica, e usá-lo errado muda o sentido. Tenha um repertório pequeno e seguro:

  • Para adicionar: além disso, ademais, também.
  • Para opor: porém, entretanto, no entanto.
  • Para explicar a causa: porque, uma vez que, visto que.
  • Para indicar consequência: portanto, por isso, desse modo.
  • Para concluir um raciocínio: assim, logo, dessa forma.

Evite repetir sempre o mesmo. Um texto com “além disso” em todo início de parágrafo soa mecânico. Também vale trocar palavras repetidas por sinônimos ou pronomes: se “alimentos” aparece muitas vezes, alterne com “produtos”, “comida” ou “esses itens”. Outra técnica é começar o parágrafo retomando o anterior: “Outro fator que agrava o desperdício é…”.

Como fechar sem apenas repetir

O último parágrafo precisa acrescentar alguma coisa. Em provas que pedem proposta de intervenção, como o Enem, ele deve apresentar uma solução detalhada, que respeite os direitos humanos e responda a cinco perguntas: quem vai agir, o que será feito, como, para quê e um detalhe adicional sobre um desses elementos.

Exemplo: Portanto, cabe ao poder público, em parceria com produtores, ampliar a rede de bancos de alimentos, por meio de incentivos à coleta de excedentes em feiras e centrais de abastecimento, a fim de levar produtos ainda próprios para consumo a quem precisa. Essas ações devem incluir campanhas que ensinem o consumidor a valorizar o alimento fora do padrão estético.

Nas provas que não exigem intervenção, feche com uma resposta firme à questão inicial, uma consequência do que foi defendido ou uma ressalva que amplie a discussão.

O que corrigir na última leitura

Reserve de 10 a 15 minutos para revisar. Leia uma vez olhando só a lógica e outra olhando só a gramática, porque é difícil fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Procure:

  • Frases com mais de três linhas, que costumam esconder erro de pontuação.
  • Vírgula entre sujeito e verbo.
  • Pronomes vagos, como “isso” sem referência clara.
  • Palavras informais, como “tipo”, “a gente” e “coisa”.
  • Generalizações como “todo mundo sabe” ou “ninguém se importa”.

Se o erro for grande, risque com um traço simples, conforme a orientação da prova, e continue. Fazer o rascunho com folga deixa tempo para passar a limpo sem pressa.

Perguntas frequentes

Posso escrever em primeira pessoa?

Em provas formais, prefira a impessoalidade. Em vez de “eu acho que o desperdício é grave”, afirme “o desperdício agrava a desigualdade”. A frase ganha força porque o argumento deixa de ser uma opinião pessoal e passa a ser uma afirmação a ser sustentada.

Quantos argumentos devo usar?

Dois bem desenvolvidos valem mais do que quatro superficiais. Em cerca de 30 linhas, não há espaço para aprofundar muitos caminhos.

Preciso dar título?

Depende do edital. No Enem, o título é opcional; em outras provas, ele pode ser obrigatório. Leia sempre as instruções, inclusive sobre a quantidade mínima de linhas e o tipo de caneta.

Como treinar sem professor?

Escreva uma redação por semana com tempo marcado, deixe descansar por um dia e releia como se fosse de outra pessoa. Depois reescreva o parágrafo mais fraco. Quem vai fazer o Enem encontra na cartilha oficial do participante, publicada pelo Inep, os critérios de correção e exemplos comentados.