
O bloco afro Ilú Obá de Min deu início ao carnaval de rua de São Paulo na noite de sexta-feira (13) com um cortejo vibrante que incluiu tambores, cânticos e danças pelas ruas do centro da cidade. Composto por cerca de 400 integrantes, o bloco é conhecido por sua defesa dos direitos das mulheres e por combater o racismo.
O tema deste ano, “Ifatinuké — Iyá-Olobá do Axé Transatlântico”, homenageia Ifatinuké, uma importante sacerdotisa africana que simboliza a resistência e a ancestralidade das mulheres negras. A concentração ocorreu na Praça da República, onde mesmo com a forte chuva que atingiu a cidade no final da tarde, os foliões mantiveram a alegria e a energia.
O desfile seguiu pelas avenidas São João, Consolação e pela famosa Praça Ramos, culminando no Largo do Paissandu. O ritmo da festa foi marcado por tradições afro-brasileiras, como jongo e maracatu, e centenas de pessoas acompanharam o cortejo.
Na frente do bloco, Yalorixás vestidas de branco lideraram a folia, seguidas por grupos de participantes que trouxeram cores e movimentos com roupas tradicionais dos orixás. A bateria, composta predominantemente por mulheres, reverberou cânticos em iorubá, enquanto mensagens contra machismo, homofobia e racismo foram constantemente levantadas ao longo do trajeto.
Ifatinuké, também conhecida como Tia Inês, chegou ao Brasil na década de 1870, trazendo consigo o conhecimento e a espiritualidade de seu povo originário do reino de Oyó, na atual Nigéria. Ela fundou o Terreiro Nagô Iemanjá Ogunté Obaomin, no Recife (PE). Ao celebrar sua vida, o bloco busca ressignificar a narrativa da história negra, mostrando a força e a vitamina cultural da população afrodescendente.
Cibele de Paula, integrante do Ilú Obá de Min há 15 anos, destaca a importância dessa homenagem para mudar a percepção sobre a história do povo negro. Para ela, a narrativa de Ifatinuké é fundamental para evidenciar a resistência e a força cultural que atravessaram o Atlântico.
A psicóloga Janice Plácido de Jesus, que participou do bloco pela primeira vez, ressaltou a relevância da presença de mulheres negras nas ruas, discutindo questões como ancestralidade e direitos humanos. Para ela, uma celebração desse tipo abre caminhos importantes para o diálogo social.
O nome Ilú Obá de Min, que traduzido do iorubá significa “mãos femininas que tocam para o rei Xangô”, foi idealizado em 2004 por um grupo de mulheres. Desde então, o bloco só cresceu. Em seus primeiros anos, contava com aproximadamente 50 participantes e, atualmente, esse número aumentou para cerca de 400.
O grupo é descrito como um “ecossistema afrocentrado”, que reconhece e respeita a importância das mulheres mais velhas em sua trajetória. Zuleica de Souza, Yalorixá e enfermeira, enfatizou que participar do Ilú Obá de Min é uma forma de honrar o legado de luta dos ancestrais, que pavimentaram o caminho para que as tradições fossem manifestadas na sociedade contemporânea.
Ela ressaltou ainda que o bloco não se limita a um evento festivo, mas representa a luta das mulheres negras e a celebração de sua contribuição à cultura, arte e resistência social no país.
A deputada estadual Ediane Maria, do Psol, também participou do evento e comentou que o bloco simboliza “a raiz do nosso país”, reforçando a importância da cultura popular como elemento de resistência, especialmente em tempos de ataques à religiosidade de matriz africana.
Com um legado de quase 20 anos, o Ilú Obá de Min continua a ser um símbolo de resistência, força e celebração da cultura afro-brasileira durante o carnaval de São Paulo.

