Perto de Manaus, um passageiro de barco vê algo que parece truque de fotografia: o Rio Negro, escuro como chá forte, corre lado a lado com o Solimões, barrento, sem se misturar por vários quilômetros. As diferenças de temperatura, velocidade e densidade da água seguram a fronteira por um bom trecho. O Encontro das Águas é o cartão-postal mais famoso da hidrografia brasileira, mas também é um bom ponto de partida para entender o assunto: cada rio carrega a história do lugar por onde passou.
O Brasil concentra uma parcela enorme da água doce superficial do planeta, número que costuma ser citado em torno de 12%. Só que essa água não está onde as pessoas estão. A maior parte fica na Amazônia, região pouco povoada, enquanto o Sudeste e o litoral nordestino, muito mais habitados, dispõem de uma fração bem menor. Essa desigualdade explica boa parte das discussões sobre abastecimento no país.
Rio, bacia e região hidrográfica: qual a diferença
Um rio é o curso de água em si. Uma bacia hidrográfica é toda a área de terra cuja chuva escorre para aquele rio e seus afluentes. Pense em um funil gigante: a borda são as partes altas do relevo, chamadas divisores de águas, e o bico é a foz.
Já a região hidrográfica é um recorte de planejamento. Em 2003, o Conselho Nacional de Recursos Hídricos dividiu o país em 12 regiões:
- Amazônica
- Tocantins-Araguaia
- Atlântico Nordeste Ocidental
- Parnaíba
- Atlântico Nordeste Oriental
- São Francisco
- Atlântico Leste
- Atlântico Sudeste
- Atlântico Sul
- Paraná
- Uruguai
- Paraguai
Alguns livros mais antigos falam em oito ou nove bacias, por isso é comum encontrar números diferentes. Não é erro: são classificações distintas. Quem precisa de dados atualizados sobre vazão, qualidade da água e reservatórios encontra as informações na Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
Amazonas: o gigante
O Amazonas nasce nos Andes peruanos e é o rio de maior volume de água do mundo. Ao entrar no Brasil, recebe o nome de Solimões e passa a se chamar Amazonas depois do encontro com o Negro. Sua bacia, com cerca de 6 milhões de quilômetros quadrados, se estende por vários países sul-americanos, e a parte brasileira é a maior delas.
A extensão total costuma ser citada em torno de 7 mil quilômetros, e a disputa com o Nilo pelo posto de mais longo do mundo depende de onde se considera a nascente. Quanto ao volume, porém, não há competição.
Entre os afluentes, destacam-se o Madeira, o Tapajós, o Xingu, o Negro e o Purus. O Madeira é uma importante hidrovia para o escoamento de grãos, e o Xingu abriga a usina de Belo Monte, no Pará. Na região da foz, ocorre a pororoca, fenômeno em que a maré oceânica entra pelo rio com uma onda forte e ruidosa.
Para as populações locais, o rio é estrada, despensa e calendário. A cheia e a vazante definem quando se planta nas várzeas, quando se pesca certas espécies e até como as casas são construídas, muitas delas sobre palafitas ou flutuantes.
Tocantins-Araguaia: os dois irmãos do Cerrado
O Tocantins nasce em Goiás e deságua na região de Belém, perto da foz do Amazonas, embora não seja afluente dele nas classificações usadas pelo planejamento brasileiro. O Araguaia corre em paralelo por boa parte do caminho e se junta ao Tocantins na região do Bico do Papagaio, no extremo norte do estado do Tocantins. No Araguaia fica a Ilha do Bananal, frequentemente descrita como a maior ilha fluvial do mundo.
A usina de Tucuruí, no Pará, é uma das maiores hidrelétricas do país. Na seca, as praias de areia do Araguaia viram destino de férias para famílias de Goiás e Tocantins.
São Francisco: o rio que atravessa o sertão
Conhecido como Velho Chico, o São Francisco nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, percorre cerca de 2.700 quilômetros e deságua no Atlântico, entre Alagoas e Sergipe. Passa por Minas, Bahia e Pernambuco, formando um corredor de água em pleno semiárido. Essa é sua importância histórica: permitiu a circulação de gado e de gente pelo interior, o que lhe rendeu o apelido de “rio da integração nacional”.
Hoje ele movimenta usinas como Sobradinho, Paulo Afonso e Xingó, e abastece a fruticultura irrigada do polo de Petrolina e Juazeiro, de onde saem uvas e mangas. O Projeto de Integração do São Francisco, conhecido como transposição, leva parte de suas águas por canais até áreas do Nordeste Setentrional.
Paraná: a bacia da energia
Formado pelo encontro dos rios Grande e Paranaíba, o Paraná é o eixo da bacia mais povoada e industrializada do país. Ali está a usina de Itaipu, administrada em conjunto por Brasil e Paraguai.
Um caso curioso é o Tietê. Ele nasce em Salesópolis, a pouco mais de 20 quilômetros do mar em linha reta, mas a Serra do Mar bloqueia o caminho. Por isso, corre para o interior, atravessa a capital paulista e o estado inteiro, até desaguar no Paraná. Foi essa direção que favoreceu as expedições dos bandeirantes rumo ao oeste. Trechos do interior formam a hidrovia Tietê-Paraná, enquanto a poluição do trecho metropolitano segue como um problema conhecido.
O Iguaçu, famoso pelas cataratas na fronteira com a Argentina, também pertence a esse sistema e deságua no Paraná.
Paraguai: o rio do Pantanal
O Rio Paraguai nasce em Mato Grosso e tem pouca inclinação no trecho brasileiro. Essa característica, combinada com a planície, faz com que as águas da chuva se espalhem devagar, criando as cheias que moldam o Pantanal. A água pode levar meses para atravessar a região. Depois, o rio segue pelo território paraguaio até encontrar o Paraná, já fora do Brasil.
Uruguai e os rios do Sul
O Rio Uruguai se forma entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul e marca parte da fronteira com a Argentina. Sua vazão oscila bastante, conforme a distribuição das chuvas. Mais a leste, os rios Jacuí e Taquari integram o sistema que deságua no Guaíba, em Porto Alegre, e a Lagoa dos Patos liga a região ao oceano, com o porto de Rio Grande na saída.
Parnaíba e os rios do Nordeste
O Parnaíba separa Piauí e Maranhão e termina em um delta aberto para o mar, com ilhas e dunas. Mais a leste, muitos rios do semiárido são temporários: correm na época das chuvas e somem na estiagem. O Jaguaribe, no Ceará, é o caso clássico, hoje regulado por grandes açudes como o Castanhão. Para quem mora nessas áreas, a chegada da água no leito seco é um acontecimento celebrado pela vizinhança.
Rios costeiros que importam muito
Alguns rios menores têm peso desproporcional. O Paraíba do Sul, que passa por São Paulo, Minas e Rio de Janeiro, é peça central no abastecimento da região metropolitana do Rio, por meio de um desvio de águas para o sistema Guandu. O Rio Doce, entre Minas e Espírito Santo, ficou conhecido nacionalmente após o rompimento da barragem de Mariana em 2015, que levou rejeitos de mineração até o mar.
Para que servem os rios no dia a dia
A maior parte da eletricidade brasileira vem historicamente de hidrelétricas, embora a participação de fontes como a eólica e a solar venha crescendo. Isso cria uma dependência direta das chuvas: em anos secos, os reservatórios baixam e outras usinas precisam ser acionadas.
Rios também abastecem cidades, irrigam lavouras, transportam cargas e sustentam comunidades ribeirinhas. O desmatamento das margens, o esgoto sem tratamento e o garimpo ilegal ameaçam essas funções. As matas ciliares, que acompanham os cursos de água, protegem o solo contra erosão e ajudam a manter a água limpa, razão pela qual a legislação ambiental brasileira as trata como áreas de preservação.
Na próxima vez que abrir a torneira, vale um exercício simples: descubra de qual rio ou reservatório vem a água da sua cidade. A empresa de saneamento local informa o manancial, e muita gente se surpreende com a distância percorrida até a sua casa.
