Por que uma criança de Belém, outra de Porto Alegre e outra de Salvador conhecem o Saci, mas cada uma pode descrevê-lo de um jeito diferente? Porque o folclore não tem versão oficial. Ele muda quando é contado, ganha detalhes locais e mistura heranças de povos diferentes. Essa é a graça do assunto, e também o motivo pelo qual qualquer lista de personagens deve ser lida como um retrato, não como um regulamento.
A palavra folclore vem do inglês folk-lore, termo proposto pelo britânico William Thoms em 1846 para designar o saber do povo. No Brasil, o Dia do Folclore é comemorado em 22 de agosto, data oficializada em 1965. O grande estudioso do tema foi o potiguar Luís da Câmara Cascudo, autor do Dicionário do Folclore Brasileiro, publicado em 1954 e até hoje uma referência.
Três fontes e muitas misturas
Quase todos os personagens brasileiros resultam de um encontro de tradições:
- Indígena: seres protetores da mata e dos rios, como o Curupira e o Boitatá.
- Europeia: criaturas trazidas pelos colonizadores, como o Lobisomem e a Mula sem Cabeça.
- Africana: influências em narrativas, nos ritmos e em características de personagens, como a do Saci em suas versões mais conhecidas.
A mistura é tão forte que muitas figuras têm origem difícil de separar. O Saci é o melhor exemplo.
Guardiões da mata
Saci-Pererê
Menino negro de uma perna só, gorro vermelho e cachimbo, o Saci vive de pregar peças: esconde objetos, azeda o leite, assusta cavalos e faz nós em suas crinas. Segundo a tradição, nasce em gomos de bambu, anda em redemoinhos e pode ser capturado com uma peneira. Quem o prende deve guardá-lo em uma garrafa.
Pesquisadores apontam que a lenda surgiu entre povos indígenas do Sul, onde o personagem seria um menino de duas pernas. Ao se espalhar, teria incorporado elementos africanos, como a pele negra, e europeus, como o gorro. Monteiro Lobato ajudou a popularizá-lo ao organizar, em 1917, uma pesquisa com leitores de jornal sobre as histórias do Saci, e depois com os livros do Sítio do Picapau Amarelo. O estado de São Paulo e alguns municípios celebram o Dia do Saci em 31 de outubro.
Curupira
Protetor da floresta, tem cabelo vermelho e os pés virados para trás, de modo que suas pegadas enganam quem tenta segui-lo. Castiga caçadores gananciosos e quem derruba árvores sem necessidade. É um dos personagens mais antigos registrados: o padre José de Anchieta o menciona em uma carta de 1560, escrita em São Vicente.
Caipora
Muitas vezes confundida com o Curupira, a figura varia bastante de região para região. Pode ser uma pequena mulher ou um homem de corpo peludo, montado em um porco-do-mato. Protege os animais, e em algumas áreas do interior ainda se ouve que caçadores deixam agrados em um tronco para não atrair sua fúria. No Nordeste, a expressão “estar com a caipora” significa estar com azar.
Boitatá
Cobra de fogo que protege os campos contra incêndios e quem os provoca. O nome tem origem tupi, com sentido de “coisa de fogo” ou “cobra de fogo”. Também aparece na carta de Anchieta. Uma explicação proposta para a lenda é o fogo-fátuo, chama azulada causada pela queima de gases que saem de matéria orgânica em áreas pantanosas, fenômeno que pode parecer uma luz serpenteando na escuridão.
Encantados das águas
Iara
A Mãe-d’Água é uma bela mulher que vive nos rios da Amazônia e atrai os pescadores com seu canto. Quem a segue não volta. Cascudo observou que os relatos mais antigos falavam de um monstro aquático, o Ipupiara, e que a imagem da sereia sedutora surgiu com a influência europeia, próxima das sereias antigas do Mediterrâneo. Nesse caso, a aparência é mais recente do que costumamos imaginar.
Boto-cor-de-rosa
Na Amazônia, conta-se que o boto se transforma em um rapaz elegante, vestido de branco e de chapéu, que aparece nas festas à beira-rio. O chapéu serviria para esconder o orifício no alto da cabeça, por onde o animal respira. Ao amanhecer, ele volta para o rio. É uma história que também funcionava como explicação popular para acontecimentos da vida das comunidades ribeirinhas, e que até hoje faz parte do imaginário do Norte. O boto real, aliás, é uma espécie protegida e sofre com a pesca predatória.
Cobra Grande
Também chamada Boiúna, é uma serpente gigantesca da Amazônia que abriria os canais dos rios ao passar. Algumas versões dizem que ela dorme embaixo de cidades, como Belém, e que suas viradas de corpo poderiam abalar o chão.
Assombrações do interior
Mula sem Cabeça
Mulher amaldiçoada que, em noites de quinta para sexta, se transforma em uma mula que corre pelos campos soltando fogo pelo pescoço. A lenda veio com os colonizadores e se espalhou por vilarejos rurais, muitas vezes como aviso moral sobre comportamentos reprovados pela comunidade.
Lobisomem
Figura conhecida em boa parte do mundo, chegou ao Brasil pela via ibérica. Na versão popular daqui, sua sina muitas vezes está ligada a ser o sétimo filho depois de seis filhas. Sai em noites de lua cheia, e o medo dele marcava as conversas das fazendas, quando não havia luz elétrica nas estradas.
Cuca
Bruxa assustadora das cantigas de ninar, é famosa no verso “dorme, neném, que a Cuca vem pegar”. A palavra lembra a Coca ibérica, um ser que também era usado para assustar crianças. A aparência de jacaré vem da versão de Monteiro Lobato, consagrada pelo Sítio do Picapau Amarelo.
Mapinguari
Gigante peludo da Amazônia, com uma boca na barriga, segundo alguns relatos. Há quem sugira que a lenda guarde uma memória distante das preguiças-gigantes já extintas, mas essa é apenas uma hipótese sem comprovação.
Uma lenda de dor: o Negrinho do Pastoreio
Muito conhecida no Rio Grande do Sul, a história fala de um menino escravizado, castigado injustamente por um estancieiro depois de perder cavalos, e que depois reaparece protegido e cavalgando pelos campos. Popularmente, ele é invocado por quem perdeu algo e deseja encontrar. Simões Lopes Neto registrou essa narrativa em Lendas do Sul, de 1913. Ela mostra como o folclore também guarda memórias da escravidão e dá ao injustiçado o final que a realidade lhe negou.
Perguntas frequentes
Folclore é o mesmo que mitologia?
São campos próximos, mas não iguais. Mitologia costuma se referir a narrativas sobre a origem do mundo e os deuses de um povo. Folclore é mais amplo e abarca lendas, danças, comidas, ditados, brincadeiras e festas populares. Aliás, parlendas e trava-línguas fazem parte dele tanto quanto o Saci.
Por que é errado tratar mitos indígenas apenas como folclore?
Porque, para muitos povos, essas narrativas integram sistemas próprios de conhecimento e têm significados que vão além do entretenimento. Por isso, em um trabalho escolar, é melhor indicar o povo de origem quando ele é conhecido e evitar o genérico “lenda dos índios”.
Como apresentar o tema a crianças?
Uma boa atividade é pedir que elas perguntem a pais, avós ou vizinhos mais velhos quais histórias ouviam na infância. O resultado costuma ser surpreendente, pois cada família traz uma variação. Registrar essas versões é um pequeno trabalho de pesquisa e um modo de manter o folclore vivo, que é, afinal, a maneira como ele sempre sobreviveu.
Há personagens novos?
O folclore continua em produção. Lendas urbanas, como a da Loira do Banheiro, famosa nas escolas brasileiras, são um exemplo de como histórias coletivas surgem e se transformam, hoje também pela internet.
