Pilhas de livros antigos em uma livraria

Clássicos da literatura brasileira para começar sem medo

O erro mais comum de quem resolve “ler os clássicos” é começar por Grande Sertão: Veredas. É um livro extraordinário, de mais de 500 páginas e com uma linguagem reinventada frase a frase. Muita gente abandona no capítulo inicial e conclui que a literatura brasileira não é para si. O problema não é o leitor, é a ordem. Há livros igualmente grandes que cabem em uma semana de leitura e, depois deles, os mais difíceis ficam muito mais acessíveis.

A escola muitas vezes apresenta esses títulos em ordem cronológica e como matéria de prova. Para quem lê por prazer, faz mais sentido seguir uma escada: começar pelo mais curto e envolvente e subir aos poucos.

Primeiro degrau: livros curtos e diretos

Vidas Secas, de Graciliano Ramos (1938)

Uma família de retirantes tenta sobreviver à seca: Fabiano, Sinhá Vitória, dois meninos sem nome e a cachorra Baleia, personagem que vai marcar o leitor. Com cerca de 130 páginas, escrito em frases secas como a paisagem, ele mostra como pouca linguagem pode dizer muito. Cada capítulo funciona quase como um conto, e isso facilita a leitura em pedaços.

O Quinze, de Rachel de Queiroz (1930)

A autora tinha 19 anos quando escreveu esse romance sobre a grande seca de 1915 no Ceará. Conta, em paralelo, a vida de uma professora e a retirada de Chico Bento com sua família. É uma ótima porta de entrada para a literatura regionalista, pois combina drama e linguagem simples.

Capitães da Areia, de Jorge Amado (1937)

A história de um grupo de meninos de rua em Salvador, liderados por Pedro Bala, é um dos livros mais lidos por jovens no Brasil. Tem aventura, afeto e crítica social, em ritmo de romance popular.

O Alienista, de Machado de Assis (1882)

Antes de um romance longo de Machado, essa novela é a melhor apresentação. O médico Simão Bacamarte chega à vila de Itaguaí, cria um hospício e começa a internar cada vez mais moradores, até que a definição de loucura fica de cabeça para baixo. É engraçado, curto e muito atual.

Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus (1960)

São os diários de uma mulher negra, catadora de papel, mãe de três filhos, moradora da favela do Canindé, em São Paulo. A obra teve enorme repercussão e foi traduzida para diversos idiomas. Lê-la é ouvir uma voz que a literatura brasileira raramente tinha deixado falar, com observações agudas sobre fome e dignidade.

Segundo degrau: romances para ficar conversando depois

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1881)

O narrador está morto e conta sua vida com ironia, desde a primeira página. Os capítulos curtos e as provocações ao leitor são surpreendentemente modernos. É o livro que costuma marcar o início do Realismo no Brasil.

Dom Casmurro, de Machado de Assis (1899)

Bento Santiago, já velho, conta sua história com Capitu e o ciúme que destruiu o casamento. A famosa dúvida, se ela traiu ou não, só existe porque quem narra é parte interessada. O melhor modo de ler é desconfiando do narrador em cada capítulo.

O Cortiço, de Aluísio Azevedo (1890)

O romance acompanha a vida em uma habitação coletiva no Rio de Janeiro do fim do século 19 e a ascensão do português João Romão. É um retrato vivo da cidade e das desigualdades da época, além de um exemplo do Naturalismo. Vale lê-lo sabendo que certas visões raciais e científicas do período estão ali, e são elas mesmas parte do que se estuda.

Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto (publicado em livro em 1915)

Um funcionário público apaixonado pelo Brasil propõe que o tupi seja a língua oficial e acaba destruído pelo próprio idealismo. Lima Barreto, escritor negro do subúrbio carioca, tratou com humor e amargura os primeiros anos da República.

A Hora da Estrela, de Clarice Lispector (1977)

Último livro publicado por Clarice em vida, conta a história de Macabéa, nordestina em um Rio que mal a enxerga. É curto em número de páginas, mas pede atenção, porque o narrador fica o tempo todo discutindo como contar a história. Se a experiência for difícil, os contos de Felicidade Clandestina (1971) são uma ótima alternativa para conhecer a autora.

Terceiro degrau: os grandes desafios

Sagarana e Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa

Para entrar em Rosa, comece pelos contos de Sagarana (1946), ou por “A terceira margem do rio”, que está em Primeiras Estórias (1962). Só então vá a Grande Sertão: Veredas (1956), em que o ex-jagunço Riobaldo conta sua vida a um interlocutor. A narrativa é contínua, sem capítulos, e o estranhamento das primeiras páginas passa quando se entra no ritmo da fala dele. Um truque útil é ler trechos em voz alta.

Macunaíma, de Mário de Andrade (1928)

Rapsódia do Modernismo, a história do “herói sem nenhum caráter” mistura lendas indígenas, ditados e cenas de São Paulo. Não tente seguir uma lógica realista, e leia como quem ouve um causo cheio de exageros.

Os Sertões, de Euclides da Cunha (1902)

Mistura de reportagem, história e ensaio sobre a Guerra de Canudos, é um dos livros centrais para pensar o país. A primeira parte, dedicada à terra, pode ser densa. Muitos leitores vão direto à narrativa da campanha e voltam ao início depois.

Outros caminhos, conforme o gosto

Quem gosta de teatro pode ler Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna (1955), ou Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, um poema dramático sobre um retirante pernambucano. Quem prefere um romance histórico longo tem O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo, saga da formação do Rio Grande do Sul. Para quem quer ler autoras que ficaram muito tempo à margem, Úrsula, de Maria Firmina dos Reis (1859), é considerado um dos primeiros romances abolicionistas do Brasil, e As Meninas, de Lygia Fagundes Telles (1973), mostra três jovens em um pensionato de São Paulo durante a ditadura.

Para poesia, comece com uma antologia de Manuel Bandeira ou de Carlos Drummond de Andrade. Poemas como “Vou-me embora pra Pasárgada” e “No meio do caminho” são curtos, memoráveis e ajudam a perder o medo do gênero.

Como não desistir pelo caminho

  • Aceite a linguagem antiga. Em Machado, há palavras hoje incomuns. Uma edição comentada ou uma consulta rápida ao dicionário resolvem a maioria dos casos.
  • Dê 50 páginas de chance. Se não engrenou, troque de livro. Não é uma prova, e o título pode funcionar melhor em outro momento.
  • Leia em horários fixos. Dez páginas antes de dormir por um mês somam cerca de 300, ou um romance inteiro. Se a meta for estudar para vestibular ou concurso, nosso texto sobre técnicas de estudo ajuda a organizar o tempo.
  • Escolha pelo contexto. Antes de um romance, procure saber em que época ele foi escrito. Dois minutos sobre o Rio de 1890 mudam a leitura de O Cortiço.
  • Procure companhia. Clubes de leitura em bibliotecas e centros culturais ajudam a manter o ritmo. Conversar sobre Capitu rende mais do que ler sozinho.

Onde encontrar sem gastar muito

Obras de autores mortos há mais de 70 anos entram em domínio público no Brasil, o que significa que títulos de Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Lima Barreto e Euclides da Cunha podem ser encontrados gratuitamente em versão digital, em sites como o portal Domínio Público, mantido pelo governo federal. Bibliotecas públicas e sebos também são ótimos caminhos para livros mais recentes, que ainda têm direitos autorais.

Em muitas cidades, a biblioteca municipal faz empréstimo gratuito, bastando um cadastro simples. Peça uma indicação aos bibliotecários: costumam conhecer bem a coleção e sabem quais edições têm notas úteis para quem está começando.

Se ainda estiver em dúvida, faça o seguinte teste: leia só o primeiro capítulo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que um defunto se apresenta ao leitor. Leva cinco minutos, é de graça, e muita gente que achava que clássico era chato acaba seguindo até a última página.