Viajante com mala olhando para o horizonte ao entardecer

Imigração no Brasil: quem chegou, quando e por quê

Em junho de 1908, o navio Kasato Maru atracou no porto de Santos com cerca de 780 japoneses, a maioria contratada para trabalhar em fazendas de café. Muitos planejavam ficar poucos anos, juntar dinheiro e voltar. A realidade foi outra: salários abaixo do prometido, doenças e um clima e uma língua desconhecidos. Mesmo assim, essa viagem deu início à maior comunidade japonesa fora do Japão, presente hoje em todo o país.

A história do Kasato Maru mostra um traço comum a muitas ondas migratórias no Brasil: a mudança raramente foi só uma aventura. Havia pobreza ou guerra no ponto de partida, e interesses econômicos concretos no destino.

Antes de falar em imigração

Uma distinção é essencial. Entre os séculos 16 e 19, os portugueses chegaram como colonizadores, e milhões de africanos foram trazidos à força, em navios do tráfico negreiro. Estimativas consagradas indicam mais de 4 milhões de pessoas desembarcadas no território brasileiro, o maior destino desse comércio nas Américas. Esse deslocamento forçado não se confunde com imigração, que envolve alguma escolha. E tudo isso se passou em terras já habitadas por povos indígenas.

As primeiras colônias: o século 19

Com a chegada da corte, em 1808, o governo passou a estimular a vinda de europeus. Em 1818 e 1819, foi organizada a chegada de suíços, que fundaram Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Em 1824, um grupo de alemães se instalou em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, em um projeto de colonização com pequenas propriedades.

Esse modelo tinha objetivos claros: povoar áreas de fronteira, sobretudo no Sul, e formar uma camada de agricultores livres. Depois vieram colônias em Santa Catarina, como Blumenau e Joinville. A partir de 1875, os italianos se estabeleceram na serra gaúcha, em lugares que deram origem a cidades como Caxias do Sul e Bento Gonçalves. Poloneses e ucranianos foram para o Paraná, em especial nas regiões de Curitiba e Prudentópolis.

O café e a grande imigração

A virada veio com a expansão do café e o fim gradual da escravidão. A Lei Eusébio de Queirós, de 1850, proibiu o tráfico atlântico, e a Lei Áurea, de 1888, aboliu a escravidão. Cafeicultores paulistas buscaram substituir a mão de obra, em vez de contratar a população negra recém-liberta. Isso se somava a uma ideologia, difundida na época entre as elites, que defendia o “branqueamento” da população. Hoje, essa ideia é reconhecida como racista e sem base científica.

O senador Nicolau Vergueiro tentou um primeiro sistema na fazenda Ibicaba, em Limeira, a partir de 1847, o das parcerias. Os trabalhadores chegavam endividados, e uma revolta de colonos suíços, em 1856, expôs o problema. Assim, o estado de São Paulo passou a pagar as passagens das famílias, no regime chamado de imigração subsidiada, e os trabalhadores passaram ao colonato, com salário e permissão para cultivar alimentos.

Entre o fim do século 19 e as primeiras décadas do século 20, o país recebeu milhões de estrangeiros. Os principais grupos foram:

  • Italianos: fugiam da pobreza rural e de um país recém-unificado. Muitos foram para o café paulista.
  • Portugueses: seguiram como um dos grupos mais numerosos, concentrando-se no comércio urbano, especialmente no Rio e em São Paulo.
  • Espanhóis: ligados sobretudo à lavoura paulista.
  • Japoneses: chegaram a partir de 1908, trabalhando no café e, depois, em pequenas propriedades.
  • Sírios e libaneses: vindos do Império Otomano, foram apelidados de “turcos” por causa de seus passaportes, embora muitos rejeitassem esse rótulo. Trabalharam como mascates e depois como comerciantes, como na região da Rua 25 de Março, em São Paulo.
  • Judeus do leste europeu: migraram em busca de segurança e abrigaram-se, entre outras cidades, em Porto Alegre, São Paulo e Rio.

Em 1887, foi inaugurada a Hospedaria de Imigrantes do Brás, em São Paulo, por onde passaram muitas famílias antes de ir para o interior. O prédio hoje abriga o Museu da Imigração.

Regras, restrições e portas fechadas

A abertura nunca foi igual para todos. Um decreto de 1890 restringiu a entrada de africanos e asiáticos, que dependeria de autorização do Congresso. Em 1902, a Itália, depois de denúncias sobre as condições nas fazendas, proibiu a emigração subsidiada ao Brasil, com o decreto Prinetti.

Em 1934, a nova Constituição estabeleceu um sistema de cotas que limitava a entrada de cada nacionalidade a 2% do total recebido nos 50 anos anteriores. Na Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil entrou em conflito com Alemanha, Itália e Japão, comunidades desses países sofreram restrições, inclusive ao uso de seus idiomas em público e em escolas.

Depois da guerra, houve novas chegadas, em escala menor, como os holandeses que fundaram Holambra, em São Paulo, e os coreanos que chegaram a partir de 1963 e fizeram do bairro do Bom Retiro um polo de confecção.

Da saída de brasileiros às novas chegadas

Nas últimas décadas do século 20, o fluxo se inverteu em parte. Muitos brasileiros passaram a emigrar para Estados Unidos, Portugal e Japão, neste caso com descendentes dos antigos imigrantes indo trabalhar em fábricas como dekasseguis.

Já no século 21, o Brasil voltou a receber pessoas de outros países latino-americanos e de lugares em crise. Três movimentos se destacam:

  • Bolivianos e outros sul-americanos: muitos deles em oficinas de costura em São Paulo, com casos conhecidos de exploração que levaram a fiscalizações.
  • Haitianos: chegaram em grande número depois do terremoto de 2010, passando pelo Acre, e encontraram trabalho em indústrias do Sul.
  • Venezuelanos: entraram principalmente por Pacaraima, em Roraima, por causa da crise no país vizinho. A Operação Acolhida, criada pelo governo federal em 2018, organiza o abrigo e a transferência de pessoas para outras cidades.

No plano legal, a Lei de Migração, número 13.445, de 2017, substituiu o Estatuto do Estrangeiro, adotando uma perspectiva baseada em direitos. Já a Lei 9.474, de 1997, trata da proteção a refugiados. Quem precisa de orientação pode procurar a Polícia Federal, a Defensoria Pública da União ou organizações da sociedade civil.

Marcas no cotidiano

A imigração é facilmente percebida no dia a dia. Está nos sobrenomes, em palavras como “tchau”, vinda do italiano ciao, na esfiha da padaria, no yakissoba da feira e no sotaque de cidades como São Paulo. Em Pomerode, Santa Catarina, a arquitetura em estilo enxaimel lembra a Alemanha. Algumas comunidades mantêm idiomas de herança, como o talian, na serra gaúcha, e o pomerano, no Espírito Santo e em Santa Catarina. Em bairros paulistanos, como a Liberdade, e em festas de cidades do interior, tradições de origem convivem com as brasileiras.

Como pesquisar a história da sua família

Quem deseja saber de onde vieram seus antepassados pode começar com medidas simples:

  • Converse com os parentes mais velhos e anote nomes, datas e cidades.
  • Procure documentos antigos em casa, como certidões, passaportes e fotografias com anotações.
  • Vá ao cartório do município onde a família morou para pedir certidões de nascimento, casamento e óbito.
  • Consulte o Museu da Imigração, em São Paulo, e o Arquivo Nacional, que guardam listas de bordo e registros de entrada.
  • Considere variações de grafia, já que sobrenomes eram frequentemente alterados ao chegar ao Brasil.

Muitas dessas buscas exigem paciência. Mas um trabalho organizado, como o de quem aprende a estudar com método, costuma render bons resultados, já que permite registrar o que foi visto e o que falta conferir.

Perguntas frequentes

Qual foi o maior grupo de imigrantes no Brasil?

Portugueses e italianos estão entre os mais numerosos ao longo da história, com os primeiros tendo presença contínua desde a colonização. Os números variam conforme o período analisado e a fonte consultada.

Qual a diferença entre imigrante e refugiado?

Imigrante é quem se muda para outro país, por motivos variados, como trabalho ou família. Refugiado é quem deixa seu país por fundado temor de perseguição ou por grave violação de direitos humanos e recebe proteção internacional específica.

Por que tantos imigrantes foram para o Sul e para São Paulo?

As duas regiões tiveram políticas distintas. No Sul, a meta era colonizar terras com pequenas propriedades. Em São Paulo, o objetivo era fornecer braços ao café, o que fazia do estado o maior receptor, inclusive pelo apoio com passagens.

O Brasil ainda recebe imigrantes?

Sim, embora em proporção bem menor do que no auge do início do século 20. O percentual de estrangeiros na população brasileira é pequeno, e dados atualizados podem ser consultados nos órgãos oficiais, como o IBGE e o Observatório das Migrações Internacionais.