Em uma venda antecipada de título público, um investidor iniciante pode levar um susto: o saldo no aplicativo está menor do que o valor aplicado alguns meses antes. Ele pensa que perdeu dinheiro em um investimento considerado seguro, sendo que aquele título poderia ter cumprido exatamente o combinado se fosse mantido até o vencimento. Boa parte das dúvidas sobre o Tesouro Direto nasce desse descompasso.
O Tesouro Direto é um programa que permite a pessoas físicas comprar títulos públicos federais pela internet. Ao investir, você empresta dinheiro ao governo federal, que em troca promete devolver o valor com juros em condições definidas na compra. O dinheiro ajuda a financiar as despesas públicas, e a aplicação é feita por meio de bancos e corretoras habilitados, com registro na B3, a bolsa de valores brasileira.
Como é a primeira compra
Não é preciso ter muito dinheiro nem conhecimento avançado para começar. O caminho básico é o seguinte:
- Abra conta em um banco ou corretora habilitado, se ainda não tiver. A lista de instituições habilitadas está no site oficial do Tesouro Direto.
- Compare o que cada instituição cobra, já que algumas podem ter taxa própria além da taxa de custódia.
- Escolha um objetivo e um prazo antes de escolher um título. O objetivo é que define o título, nunca o contrário.
- Transfira o dinheiro e faça a compra pelo aplicativo ou site da instituição.
- Guarde os comprovantes e acompanhe a posição no extrato.
O site oficial do programa oferece um simulador em que você informa valor, prazo e título e vê uma estimativa do resultado líquido. Usá-lo antes de comprar evita muitas surpresas.
Os títulos em linguagem simples
Há três famílias principais, além de dois títulos voltados a objetivos específicos.
Tesouro Selic
Acompanha a taxa básica de juros da economia. É o título com menor oscilação de preços e, por isso, costuma ser usado para objetivos de curto prazo e reserva de emergência. Se a Selic sobe, o rendimento tende a subir. Se cai, tende a cair.
Tesouro Prefixado
A taxa é combinada no dia da compra. Se você comprar um prefixado a uma taxa de 12% ao ano, por exemplo, com vencimento em três anos, sabe de antemão o resultado bruto se levar até o fim: cada R$ 1.000 vira cerca de R$ 1.405, antes de impostos e taxas. O risco é a inflação disparar ou os juros subirem bastante, tornando o acordo menos vantajoso, ainda que o valor combinado continue valendo.
Tesouro IPCA+
Paga a inflação medida pelo IPCA mais uma taxa fixa combinada. Ele serve para quem quer proteger o poder de compra por longos períodos, como a aposentadoria. Se a inflação de um ano for 5% e a taxa contratada 6%, o rendimento do período fica próximo de 11,3%, porque um índice se aplica sobre o outro. Existe a versão com juros semestrais, que paga parte do rendimento a cada seis meses, em vez de acumular tudo até o vencimento.
Tesouro Renda+ e Tesouro Educa+
São títulos também atrelados à inflação, desenhados para objetivos de longo prazo. O Renda+ foi pensado para complementar a aposentadoria, com pagamentos mensais a partir de uma data escolhida. O Educa+ funciona de modo semelhante, voltado a custear estudos, com pagamentos ao longo de alguns anos. Como cada um tem regras próprias, leia as condições antes de contratar.
Por que o valor oscila antes do vencimento
Esse é o ponto mais importante para quem começa. O Tesouro Nacional garante as condições contratadas na data de vencimento. Antes disso, se você quiser vender, recebe o preço de mercado do dia, processo conhecido como marcação a mercado.
Pense em um título prefixado comprado a 10% ao ano. Se depois disso surgirem novos títulos pagando 13%, ninguém vai querer pagar o preço cheio pelo seu título mais fraco. Para vendê-lo antes do vencimento, você precisa aceitar um preço menor. Se ocorrer o inverso, com juros de mercado em queda, seu título passa a valer mais e a venda antecipada pode dar lucro maior que o previsto.
Por isso é possível ter resultado negativo vendendo antes do fim, mesmo sem qualquer problema com o governo. Títulos com prazo mais longo oscilam mais. Títulos prefixados e IPCA+ podem variar bastante. O Tesouro Selic varia pouco.
A consequência prática é simples: alinhe o vencimento ao prazo do objetivo. Dinheiro que pode ser necessário no próximo ano não deve ir para um título com vencimento em vinte anos.
Custos e impostos
Há três itens a considerar:
Taxa de custódia. A B3 cobra uma taxa pelo serviço de guarda dos títulos, calculada sobre o valor investido. Confira o percentual e eventuais isenções no site oficial, porque essas regras podem mudar.
Taxa da instituição. Muitas instituições não cobram taxa própria, mas isso não é regra. Verifique antes.
Imposto de Renda. Incide sobre o rendimento, com tabela regressiva: a alíquota diminui conforme o dinheiro fica mais tempo aplicado. Ele é retido na fonte no momento do resgate ou do pagamento de juros. Há também IOF se o resgate ocorrer nos primeiros 30 dias. As regras tributárias podem mudar, então consulte a Receita Federal ou o site oficial do programa.
Qual é o risco real
Títulos públicos federais são geralmente considerados o investimento de menor risco de crédito do país, pois quem deve é o próprio governo federal. Eles não têm a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC, porque a garantia é o próprio Tesouro Nacional.
Isso não elimina tudo. Ficam de pé o risco de mercado, descrito acima, e o risco de vender na hora errada por falta de planejamento. A inflação também pode corroer o ganho real em títulos que não a acompanham. E não confunda segurança com rendimento garantido em qualquer prazo.
Como escolher por objetivo
Algumas combinações ajudam a pensar:
- Reserva de emergência ou objetivo de até dois anos: títulos de baixa oscilação, como o Tesouro Selic, costumam ser o ponto de partida.
- Objetivo de médio prazo com valor definido, como a entrada de um imóvel em cinco anos: um título com vencimento próximo dessa data, atrelado à inflação ou prefixado.
- Longo prazo: títulos atrelados ao IPCA tendem a proteger o poder de compra por décadas, aceitando oscilações no caminho.
Antes de investir, se você tiver dívidas caras, como rotativo do cartão, é provável que quitá-las traga um resultado melhor do que qualquer título.
Perguntas frequentes
Posso investir todo mês?
Sim. Muitas instituições oferecem agendamento de compras recorrentes, e aplicar regularmente pode ajudar a construir o hábito. O preço de cada título muda dia a dia, então cada aporte terá taxa própria.
O que acontece no vencimento?
O valor líquido é depositado na conta vinculada à sua instituição, com o imposto já descontado. Depois disso, você decide se reaplica ou usa o dinheiro.
Se a instituição quebrar, perco o título?
Os títulos ficam registrados em seu CPF na B3, separados do patrimônio da instituição. Em caso de problema, eles podem ser transferidos para outra instituição habilitada. Confira a situação no extrato oficial, sempre que precisar.
Vale deixar dinheiro no Tesouro se eu precisar logo?
Depende do título. O Tesouro Selic costuma ser o mais adequado para prazos curtos. Títulos longos podem exigir venda com desconto se o dinheiro for necessário antes do vencimento.
Este conteúdo tem caráter educativo e não constitui recomendação individual de investimento. Rentabilidade passada ou simulada não garante resultado futuro.
