Abelha voando perto de flores brancas

Abelhas e polinização: por que elas importam para a sua comida

Quem planta maracujá no Brasil conhece bem a cena: em certas lavouras, trabalhadores passam de flor em flor com a mão, transferindo pólen para que o fruto se forme. Isso acontece porque a abelha-doméstica não consegue fazer esse serviço com eficiência, e as mamangavas, grandes abelhas nativas que dão conta da tarefa, são escassas onde a mata por perto desapareceu. Esse trabalho manual mostra, em um único exemplo, o valor de algo que a natureza costuma fazer de graça.

Quando se fala em abelha, muita gente pensa apenas em mel. O papel mais importante delas, porém, acontece nas flores.

O que é polinização

As plantas com flores se reproduzem quando o pólen, que contém as células reprodutivas masculinas, chega à parte feminina da flor, o estigma. Esse transporte pode ser feito pelo vento, pela água ou por animais. Ao fertilizar o óvulo, o pólen dá início à formação de sementes e, em muitos casos, do fruto.

As abelhas visitam flores em busca de néctar, que é sua fonte de energia, e pólen, sua fonte de proteína para alimentar as crias. Ao entrar na flor, o corpo peludo fica coberto de grãos de pólen. Quando a abelha passa para outra flor da mesma espécie, parte desse pólen se transfere. A troca é vantajosa para os dois lados: a abelha se alimenta e a planta se reproduz.

Algumas plantas exigem técnicas especiais. O tomateiro, por exemplo, guarda o pólen em uma espécie de cápsula fechada. Certas abelhas, como as mamangavas, seguram a flor e vibram os músculos do corpo, liberando o pólen como se sacudissem um saleiro. Esse processo é conhecido como polinização por vibração, e a abelha-doméstica não sabe fazê-lo.

Um relatório da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, de 2016, estimou que cerca de três quartos das principais culturas agrícolas do mundo se beneficiam, em algum grau, da polinização animal. Isso não significa que três quartos de toda a comida desapareceriam, já que arroz, trigo e milho são polinizados pelo vento. Mas frutas, hortaliças, castanhas e oleaginosas, que dão variedade e nutrientes à dieta, ficariam mais escassas e mais caras.

Muito além da abelha do mel

No mundo, são conhecidas mais de 20 mil espécies de abelhas. O Brasil abriga bem mais de mil delas, e a maioria não produz mel para colheita nem vive em colmeias com rainha.

Abelhas com ferrão

A Apis mellifera, a abelha que a maioria das pessoas conhece, não é nativa das Américas. Foi trazida da Europa ao Brasil no século 19. Em 1956, abelhas africanas foram introduzidas em um experimento de pesquisa em São Paulo, escaparam e se cruzaram com as europeias, dando origem às abelhas africanizadas que hoje predominam no país. Elas são mais defensivas, mas são boas produtoras e polinizadoras de várias culturas.

Abelhas sem ferrão

São nativas do Brasil e têm nomes como jataí, mandaçaia, uruçu, tiúba e mirim. O ferrão delas é atrofiado e não funciona, embora algumas espécies possam morder quando se sentem incomodadas. Elas formam colônias e polinizam plantas da nossa flora, incluindo frutíferas como o açaí. A criação dessas abelhas, a meliponicultura, faz parte da tradição de povos indígenas e de comunidades rurais, e o mel delas costuma ser mais líquido e aromático. Para criar, é preciso conhecer as regras ambientais aplicáveis, que podem exigir autorização e limitam a retirada de colônias da natureza.

Abelhas solitárias

A maioria das espécies de abelhas é solitária. A fêmea constrói um pequeno ninho, muitas vezes no solo ou em troncos, e cuida sozinha dos ovos. Sem colmeia para defender, são pouco agressivas. Muitos jardins têm abelhas assim, sem que os moradores percebam.

Mamangavas

São abelhas grandes, de corpo robusto, que dão aquele zumbido forte. Elas são essenciais em lavouras de maracujá, e algumas são capazes de abrir flores pesadas que abelhas pequenas não conseguem.

O que acontece dentro de uma colmeia

Em colônias de Apis, cada abelha tem uma função. A rainha põe ovos, os zangões fecundam a rainha e as operárias fazem quase todo o resto, conforme a idade: limpam a colmeia, cuidam das crias, produzem cera, guardam a entrada e saem em busca de alimento. Uma colmeia forte pode reunir dezenas de milhares de indivíduos.

As abelhas também se comunicam. O cientista Karl von Frisch descreveu a chamada “dança do requebrado”, que indica a direção e a distância de uma fonte de alimento. Ao longo da vida, uma operária visita um número gigantesco de flores e produz uma quantidade mínima de mel, algo próximo de uma fração de colher de chá. Cada pote é resultado do trabalho de milhares de abelhas.

Por que as populações estão sob pressão

O declínio de polinizadores tem várias causas ao mesmo tempo.

Perda de habitat. Quando matas e campos dão lugar a áreas de monocultura ou a cidades, faltam flores, ocos e solos para nidificação. Espécies nativas que dependem de plantas específicas sofrem mais.

Agrotóxicos. Inseticidas podem matar diretamente ou prejudicar a orientação, a memória e a reprodução. A aplicação durante a floração, ou em dias de vento, aumenta o risco.

Doenças e parasitas. O ácaro Varroa e outros agentes afetam colônias, sobretudo quando as abelhas já estão debilitadas pela falta de alimento.

Mudanças climáticas. Alterações nas estações podem separar a época de florada do momento de atividade dos polinizadores.

Espécies invasoras. A competição com espécies exóticas pode prejudicar polinizadores nativos em alguns lugares.

O que dá para fazer em casa e no bairro

Abelhas urbanas precisam de pouco para sobreviver, e um vaso na varanda pode fazer diferença.

  • Plante espécies que floresçam em épocas diferentes, de preferência nativas da sua região. Manjericão, alecrim e lavanda são boas opções de jardim, e as flores de uma horta em vasos podem atrair polinizadores.
  • Deixe parte dos temperos florescer antes de colher tudo.
  • Ofereça água rasa em um pratinho com pedrinhas, para que os insetos pousem sem se afogar. Troque a água com frequência para evitar o mosquito da dengue.
  • Evite inseticidas em spray no jardim, principalmente nos horários de flores abertas e de visita das abelhas.
  • Deixe um canto do quintal com solo exposto e galhos secos, que oferecem abrigo a espécies solitárias.
  • Compre mel de produtores locais identificados, que tendem a cuidar melhor das abelhas e dos ambientes onde elas vivem.

Na escala do bairro, praças e ruas com árvores que florescem em épocas diferentes funcionam como corredores de alimento.

Perguntas frequentes

Encontrei um enxame em casa. O que faço?

Não tente remover por conta própria nem use fogo ou veneno. Mantenha distância, afaste crianças e animais e procure apicultores da região, a prefeitura ou o Corpo de Bombeiros. Muitas vezes, enxames são apenas de passagem e seguem viagem em poucos dias.

Toda abelha que pousa em mim vai picar?

Não. Abelhas que estão procurando flores não costumam atacar. Movimentos bruscos e perfumes fortes podem assustar. Ninhos defendem-se com mais intensidade, por isso é preciso cuidado perto deles.

E se eu for picado?

Na maioria das vezes, uma picada causa dor, inchaço e vermelhidão no local. Procure atendimento médico imediato em caso de falta de ar, inchaço no rosto ou na garganta, tontura ou múltiplas picadas. Quem já teve reação alérgica deve consultar um médico para saber como agir.

O mel de abelha sem ferrão é diferente?

Sim. É mais líquido, com sabor mais ácido, e costuma ser mantido em refrigeração ou passar por técnicas de conservação. Por ser produzido em menor quantidade, costuma custar mais.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação de um profissional de saúde em caso de picadas ou reações alérgicas.