Confetes coloridos espalhados pelo chão

Carnaval: história da festa, do entrudo às escolas de samba

No Rio de Janeiro do século 19, sair à rua durante o Carnaval podia significar voltar para casa encharcado. O entrudo, brincadeira trazida de Portugal, consistia em atirar água, farinha e os chamados limões de cheiro, pequenas bolas de cera cheias de água perfumada, em quem passasse. Autoridades tentaram proibir a prática várias vezes, com pouco sucesso. A festa que hoje move milhões de pessoas nasceu assim: bagunçada, de rua e sob o olhar desconfiado da polícia.

Por que o Carnaval muda de data

A palavra carnaval costuma ser ligada à expressão latina carne levare, que remete ao ato de retirar a carne, numa referência ao período da Quaresma cristã, tempo de abstinência. Por isso, as festas de rua da Europa medieval ocorriam justamente antes desse período.

Como a Páscoa é móvel, o Carnaval também é. A terça-feira gorda cai 47 dias antes do domingo de Páscoa. Assim, a festa pode acontecer em fevereiro ou em março, mudando todos os anos.

Do salão à rua: o século 19

Com o tempo, parte da elite carioca passou a rejeitar o entrudo, considerado grosseiro, e a buscar modelos europeus, sobretudo Paris e Veneza. Em 1840, o Rio de Janeiro teve um dos primeiros bailes de máscaras da cidade, realizado no Hotel Itália. Pouco depois surgiram as Grandes Sociedades, clubes que desfilavam com carros alegóricos e crítica de costumes.

Em paralelo, a população negra e pobre seguia um caminho próprio, com formas de festejar que a imprensa da época muitas vezes tratava como desordem. Na segunda metade do século, ficou famoso o Zé Pereira, grupo que tocava bumbos pelas ruas, costume atribuído a um português de nome parecido.

Em 1899, a compositora carioca Chiquinha Gonzaga escreveu Ô Abre Alas para o cordão Rosa de Ouro. Muitos a consideram a primeira marchinha de Carnaval, e ela continua sendo tocada, mais de um século depois.

Cordões, ranchos e blocos

Na virada para o século 20, as ruas do Rio passaram a abrigar três formas principais de agremiação:

  • Cordões: grupos com forte presença de percussão, herdeiros de cortejos anteriores.
  • Ranchos: mais organizados e com enredo, tiveram sua forma moldada no Rio por migrantes baianos, com destaque para Hilário Jovino Ferreira.
  • Blocos: reuniões mais livres de vizinhos e amigos, que ocupavam as ruas do bairro.

O ponto de encontro de muita gente era a região da Praça Onze, conhecida como Pequena África. Lá ficava a casa de Tia Ciata, baiana cujo quintal recebeu nomes centrais da música popular. Dali saiu Pelo Telefone, registrada por Donga em 1916 e grande sucesso no Carnaval de 1917. É a canção geralmente lembrada como o primeiro samba gravado.

Blocos tradicionais seguem ativos até hoje. O Cordão da Bola Preta, fundado no Rio em 1918, arrasta multidões pelo centro da cidade no sábado de Carnaval.

O nascimento das escolas de samba

Em 1928, no bairro do Estácio, Ismael Silva e outros sambistas criaram a Deixa Falar, geralmente apontada como a primeira escola de samba. Uma explicação popular para o nome diz que eles se inspiraram em uma escola normal que ficava por perto. A contribuição musical deles também foi grande, ao criarem um samba mais adequado para acompanhar um cortejo em movimento.

O primeiro concurso entre escolas ocorreu em 1932, organizado pelo jornal Mundo Sportivo, e a Mangueira saiu vencedora. Na década seguinte, os desfiles foram ganhando apoio oficial, e foi nessa fase que as escolas consolidaram o enredo sobre temas brasileiros.

Nas décadas seguintes, a estrutura foi crescendo até o formato atual:

  • Comissão de frente: abre o desfile e apresenta a escola.
  • Mestre-sala e porta-bandeira: casal que conduz o pavilhão, a bandeira da agremiação.
  • Bateria: responsável por dar ritmo à escola, comandada pelo mestre.
  • Ala das baianas: homenagem às mulheres que ajudaram a formar o samba.
  • Alegorias e fantasias: representam visualmente o enredo.
  • Samba-enredo: a música composta para contar a história daquele ano.

Em 1984, o Rio inaugurou a Passarela do Samba, projetada por Oscar Niemeyer e conhecida como Sambódromo, criada para dar um lugar permanente a desfiles que antes dependiam de arquibancadas montadas e desmontadas. São Paulo também desenvolveu sua tradição própria, com origem nos cordões da Barra Funda e do Bixiga, e passou a usar o Sambódromo do Anhembi.

Por trás do espetáculo, há uma economia que emprega costureiras, ferreiros, escultores e aderecistas o ano inteiro nos barracões. Para uma comunidade, a quadra da escola também é espaço de encontro, aula de percussão e projeto social.

Recife e Olinda: o frevo no meio da multidão

Enquanto isso, Pernambuco criava outro Carnaval. O frevo surgiu em Recife, no fim do século 19, da mistura de marchas de bandas militares com os movimentos dos capoeiras que abriam caminho à frente desses grupos. O nome vem de “ferver”, em referência à agitação das ruas, e o termo apareceu na imprensa local no início do século 20. Em 2012, a Unesco o reconheceu como Patrimônio Imaterial da Humanidade.

O passo do frevo, cheio de agachamentos e saltos, e a sombrinha colorida viraram símbolos da cidade. Hoje, o Galo da Madrugada, criado em 1978, reúne multidões no sábado de Carnaval, em Recife. Em Olinda, os bonecos gigantes atravessam as ladeiras, entre eles o Homem da Meia-Noite, que sai desde a década de 1930.

Os maracatus, com cortejos que têm raízes nas coroações de reis negros do período colonial, são outra marca da festa pernambucana.

Salvador: a invenção do trio elétrico

Em 1950, os músicos baianos Dodô e Osmar saíram às ruas de Salvador em um Ford antigo, tocando guitarras elétricas adaptadas a partir de instrumentos que eles próprios criaram. O carro ficou conhecido como fobica, e a ideia pegou. No ano seguinte, com mais um integrante, Temístocles Aragão, o trio virou tradição. Com o tempo, o veículo cresceu e virou um caminhão com palco e sistema de som.

O Carnaval baiano também foi moldado pelos blocos afro. O Filhos de Gandhy, fundado por estivadores em 1949, inspirou-se no líder indiano pacifista. O Ilê Aiyê, criado em 1974 no bairro do Curuzu, tornou-se uma afirmação da identidade negra. O Olodum, de 1979, levou os tambores do Pelourinho para o mundo. Essas agremiações, junto com os afoxés, foram a base do que nos anos 1980 passou a se chamar axé music.

Outros carnavais pelo país

Falar só de Rio, Recife e Salvador deixa muita coisa de fora. As marchinhas ainda animam bailes de salão pelo interior e encontros de bandinhas. Em cidades históricas de Minas, como Ouro Preto e Diamantina, as ladeiras recebem blocos universitários. Belo Horizonte viu um movimento de blocos de rua crescer muito nas últimas décadas, assim como São Paulo.

Em Santa Catarina, Florianópolis tem longa tradição de escolas de samba, e Corumbá, em Mato Grosso do Sul, mantém um dos carnavais mais tradicionais do Centro-Oeste. No litoral do Nordeste e no interior do Maranhão, ritmos locais dividem espaço com o axé. Além disso, muita gente prefere descansar no feriado, e cidades de serra e de praia recebem esse público que foge da folia.

Como aproveitar sem sustos

A festa cresceu e, com ela, vieram cuidados que todo folião experiente conhece:

  • Combine um ponto de encontro com o grupo, pois o celular pode falhar em meio à multidão.
  • Leve apenas o documento necessário e uma quantia pequena. Proteja suas contas e dados caso perca o aparelho, usando as dicas do nosso texto sobre senhas seguras.
  • Beba água com frequência e use protetor solar, pois os blocos costumam sair sob sol forte.
  • Fique de olho nas crianças, com identificação na pulseira ou na roupa.
  • Respeite as regras da prefeitura sobre horários e trajetos, além de quem mora no percurso.

Importunação e assédio são crimes e devem ser denunciados à polícia ou pelo número 180, que atende mulheres em situação de violência. O respeito ao outro faz parte da tradição tanto quanto o confete.