Cachoeira entre montanhas e floresta sob neblina

Ciclo da água explicado: do oceano à torneira da sua casa

A água do seu copo é muito antiga. As moléculas que ela contém existem há bilhões de anos e já passaram por oceanos, geleiras, nuvens, raízes de árvores e organismos de todo tipo. O planeta praticamente não ganha nem perde água em escala relevante: o que muda é o lugar onde ela está e o estado em que se encontra. Esse movimento permanente recebe o nome de ciclo da água, ou ciclo hidrológico.

Duas forças movem tudo. O Sol fornece a energia que faz a água subir, e a gravidade a traz de volta. Entre uma coisa e outra há várias etapas, e nem todas ocorrem na ordem simples que aparece nos desenhos da escola.

Onde a água do planeta está

Da água da Terra, cerca de 97,5% é salgada. Dos 2,5% restantes de água doce, a maior parte está congelada em geleiras e calotas polares ou armazenada no subsolo. Rios e lagos representam uma parcela mínima do total. Para imaginar a proporção: se toda a água do planeta coubesse em uma garrafa de 2 litros, a água doce superficial e facilmente disponível caberia em bem menos do que uma colher de chá.

O Brasil tem posição privilegiada, com uma parcela significativa da água doce superficial do mundo, frequentemente estimada em torno de 12%. A distribuição, porém, é muito desigual. A maior parte está na região Norte, que tem pequena fração da população, enquanto áreas do Semiárido e grandes metrópoles convivem com escassez.

As etapas, uma de cada vez

Evaporação

A energia solar aquece a superfície de oceanos, rios, lagos e do solo úmido, e parte da água passa do estado líquido para vapor. Como o sal não acompanha o vapor, a evaporação é, em essência, um processo natural de dessalinização. Os oceanos respondem pela maior parte da água que entra na atmosfera.

Transpiração

As plantas retiram água do solo pelas raízes e liberam vapor pelas folhas, por meio de pequenas aberturas chamadas estômatos. Quando se somam a evaporação do solo e a transpiração, usa-se o termo evapotranspiração. Em florestas densas, esse fluxo é enorme, como veremos adiante.

Condensação

O vapor sobe e, ao encontrar ar mais frio, volta ao estado líquido, formando gotículas minúsculas ao redor de partículas de poeira, sal marinho e fumaça. Bilhões dessas gotículas juntas formam as nuvens. O orvalho na grama de manhã e o vapor embaçando o vidro do banheiro são versões domésticas do mesmo fenômeno.

Precipitação

Dentro da nuvem, as gotículas se chocam e se unem até ficarem pesadas demais para flutuar. Caem então como chuva, granizo ou, em locais frios, neve. Uma quantidade grande de chuva cai diretamente no mar, sem nunca ter tocado a terra.

Infiltração e água subterrânea

Parte da água que chega ao solo penetra pelos poros e pelas fissuras das rochas. Ela alimenta o lençol freático e os aquíferos, reservatórios subterrâneos que podem levar séculos para se renovar. O Sistema Aquífero Guarani, que se estende por partes do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, é um dos exemplos mais conhecidos.

Essa água não está parada. Ela se move lentamente e costuma brotar em nascentes, alimentando rios mesmo na estação seca. É por isso que um rio pode continuar correndo meses depois da última chuva.

Escoamento

O que não infiltra corre pela superfície, formando enxurradas, córregos e rios, que levam a água de volta aos lagos e ao mar. É o trecho mais visível do ciclo e também o mais afetado pelas mudanças na paisagem.

Sublimação e degelo

Em regiões geladas, parte do gelo pode passar direto para vapor, fenômeno chamado de sublimação. O derretimento da neve nas montanhas alimenta rios em várias partes do mundo. No Brasil, esse processo é pequeno, mas o degelo dos Andes contribui para a bacia amazônica por meio de rios que nascem nas alturas.

Quanto tempo a água fica em cada lugar

O ciclo tem ritmos muito diferentes. Uma molécula de água passa em média cerca de nove dias na atmosfera antes de cair novamente. Em um rio, pode ficar semanas ou meses. No oceano, em média, permanece milhares de anos. Em aquíferos profundos e geleiras, pode ficar por um tempo ainda maior.

Essa diferença é a razão por que a poluição de um aquífero é tão grave. Um rio pode se recuperar em anos se a fonte de contaminação for interrompida. Uma água subterrânea contaminada pode levar um tempo imenso para se limpar.

O papel da floresta: os rios voadores

A floresta amazônica é um dos melhores exemplos de como a vida participa do ciclo. Uma árvore grande pode transpirar centenas de litros de água em um único dia. Somadas, as árvores devolvem à atmosfera um volume imenso de vapor, que forma massas de ar úmido carregadas pelos ventos e barradas pelos Andes.

Parte dessa umidade segue para o Centro-Oeste, o Sudeste e o Sul do Brasil e para países vizinhos, em fluxos apelidados de rios voadores. Em outras palavras, a chuva que abastece reservatórios e lavouras longe da Amazônia depende, em parte, da floresta em pé. Quando há desmatamento, essa reciclagem de água diminui, e pesquisas associam a perda de cobertura vegetal à redução de chuvas em certas regiões.

O Cerrado tem outro papel. Suas plantas têm raízes profundas, e o bioma abriga nascentes de grandes bacias hidrográficas, o que lhe rendeu o apelido de “berço das águas”. Para conhecer esses ambientes, vale ler o artigo sobre os biomas brasileiros.

O que as cidades fazem com o ciclo

Asfalto, concreto e telhados impedem a infiltração. Quando chove forte, a água que antes penetraria no solo corre pelas ruas em grande velocidade, enche galerias e alcança rios de uma só vez. Córregos canalizados em avenidas agravam o problema, porque a água perde espaço para espalhar. O resultado são as enchentes urbanas, mesmo em chuvas que uma bacia preservada absorveria melhor.

Há soluções baseadas no próprio ciclo. Parques lineares, jardins de chuva, calçadas permeáveis, telhados verdes e reservatórios de detenção retardam o escoamento e devolvem parte da água ao solo. Áreas verdes também reduzem o calor da cidade, já que a transpiração das plantas resfria o ar ao redor.

Como o ciclo chega à sua torneira

A água da sua casa é captada de um rio, represa ou poço e passa por uma estação de tratamento, onde são removidas impurezas e micro-organismos. Depois, percorre adutoras e reservatórios até chegar à sua caixa d’água. O esgoto, quando coletado e tratado, volta ao rio em condição melhor. Quando isso não ocorre, os dejetos poluem os mesmos mananciais que abastecem outras cidades rio abaixo.

Cada litro economizado em casa significa menos água retirada dos mananciais, menos energia gasta para tratar e bombear e menos esgoto a ser tratado.

Por que as mudanças climáticas mexem nesse ciclo

Um ar mais quente consegue reter mais vapor, por isso o aquecimento do planeta intensifica o ciclo da água. Isso não significa mais chuva por igual em todo lugar. Significa que os eventos extremos tendem a ficar mais fortes, com chuvas torrenciais em certos lugares e secas mais severas em outros. A água total do planeta continua essencialmente a mesma, mas sua distribuição no tempo e no espaço muda. E, para abastecimento, agricultura e prevenção de desastres, é justamente essa distribuição que importa.