Quando a gengiva sangra durante a escovação, a reação de quase todo mundo é a mesma: escovar menos aquela região, para não machucar. É o caminho errado. Na maioria das vezes, o sangramento é sinal de inflamação causada pela placa bacteriana que ficou acumulada ali. Deixar a área em paz permite que a placa continue no lugar, e a gengiva piora.
Esse tipo de engano é comum porque quase todos aprendem a escovar os dentes na infância e nunca mais revisam a técnica. Cuidar da boca vai além da estética. Cárie e doença da gengiva causam dor, perda de dentes e gastos, e a saúde bucal tem ligação com a saúde geral, inclusive com o controle do diabetes.
O inimigo se chama placa bacteriana
A placa é uma película pegajosa de bactérias que se forma sobre os dentes de forma contínua. Ao entrar em contato com o açúcar da alimentação, essas bactérias produzem ácidos que desgastam o esmalte e dão origem às cáries. Quando a placa fica muito tempo junto à gengiva, ela causa inflamação. Com os minerais da saliva, endurece e vira tártaro, que só o dentista consegue remover.
Toda a rotina de higiene se resume, portanto, a desorganizar essa placa regularmente e a fortalecer o esmalte com flúor.
Passo a passo da escovação
Escove os dentes pelo menos duas vezes por dia, e o horário antes de dormir é o mais importante, porque a produção de saliva, que protege os dentes, cai durante o sono. Muitos dentistas orientam também a escovação depois das principais refeições, quando possível.
- Use uma escova de cerdas macias. Cerdas duras não limpam melhor e podem desgastar a gengiva.
- Coloque a pasta com flúor. Para adultos, uma quantidade do tamanho de uma ervilha já funciona; a pasta cobrindo toda a escova não traz vantagem.
- Incline a escova em cerca de 45 graus na direção da gengiva.
- Faça movimentos curtos e suaves, limpando um ou dois dentes de cada vez.
- Escove todas as faces: a externa, a interna e a parte de cima, usada para mastigar.
- Termine limpando a língua, de trás para a frente, com a própria escova ou com um raspador.
O tempo recomendado costuma ser de dois minutos, e muita gente para em 40 segundos. Divida a boca em quatro partes e dê meio minuto a cada uma, usando o cronômetro do celular por alguns dias para calibrar.
Escovar com força é um erro frequente. Quem amassa as cerdas em poucas semanas está pressionando demais. O excesso de força provoca retração da gengiva e sensibilidade, sem nenhum ganho de limpeza.
A escova deve ser trocada a cada três meses, aproximadamente, ou antes, se as cerdas estiverem abertas. Em caso de uso compartilhado do banheiro, cada escova deve ficar separada, sem contato com a dos outros, e secar ao ar.
Fio dental: a parte que a escova não alcança
A escova não chega ao espaço entre os dentes, justamente onde boa parte da placa se acumula. O fio dental deve ser usado pelo menos uma vez ao dia, de preferência à noite, antes de escovar.
Para usar bem, destaque um pedaço de cerca de 40 centímetros e enrole as pontas nos dedos, deixando um trecho curto esticado. Deslize o fio entre os dentes com cuidado, sem estalar contra a gengiva. Curve-o em forma de “C” ao redor de um dente e movimente para cima e para baixo. Repita do outro lado e use um trecho limpo para cada espaço.
No início, é normal que a gengiva sangre um pouco. Com alguns dias de uso, o sangramento costuma diminuir. Se persistir por mais de uma ou duas semanas, procure o dentista.
Quem tem aparelho, ponte fixa ou espaços maiores entre os dentes pode precisar de passa-fio, escovas interdentais ou fio específico. Irrigadores orais também podem ajudar, e a escolha deve ser feita com o dentista.
Pasta e enxaguante: o que importa
Na hora de escolher a pasta, olhe se ela contém flúor. Esse é o item com melhor comprovação na prevenção de cáries. Procure a concentração indicada na embalagem e, em caso de dúvida, pergunte ao dentista. Produtos que prometem clarear ou “desintoxicar” os dentes não substituem a limpeza e podem ser abrasivos.
Uma dica simples: depois de escovar, cuspa o excesso de pasta, sem enxaguar a boca com muita água. Assim, o flúor permanece em contato com os dentes por mais tempo.
O enxaguante bucal é opcional para a maioria das pessoas e não substitui a escova nem o fio. Antissépticos com ação forte podem ser indicados pelo dentista em determinados períodos, mas o uso contínuo sem orientação não é aconselhável, porque alguns podem manchar os dentes ou alterar o paladar.
Alimentação e hábitos que pesam
Não é só a quantidade de açúcar que conta. A frequência é ainda mais importante. Quem bebe um refrigerante inteiro em uma refeição expõe os dentes uma vez. Quem dá goles ao longo da tarde mantém a boca ácida por horas.
- Prefira doces junto às refeições, e não beliscados ao longo do dia.
- Beba água, que ajuda a limpar a boca e neutralizar ácidos.
- Depois de bebidas muito ácidas, como refrigerantes e sucos cítricos, espere um pouco antes de escovar, para não friccionar um esmalte amolecido.
- Não use os dentes como ferramenta, para abrir embalagens ou cortar linha.
- Evite o cigarro. Ele prejudica a gengiva, mancha os dentes e é um dos principais fatores de risco para o câncer de boca.
Boca seca, comum com alguns medicamentos e no envelhecimento, aumenta o risco de cáries. Vale conversar com o médico ou o dentista se o sintoma aparecer.
Crianças, idosos e quem usa prótese
Na infância, a higiene começa cedo. Ainda antes dos dentes, a gengiva do bebê pode ser limpa com gaze ou pano úmido, conforme a orientação do pediatra ou do dentista. Com o primeiro dente, entra a escova pequena e a pasta com flúor, em quantidade muito pequena, do tamanho de um grão de arroz. Dos 3 anos em diante, costuma ser indicada uma quantidade um pouco maior, do tamanho de uma ervilha. Até por volta dos 6 anos, e às vezes depois, um adulto precisa ajudar ou supervisionar a escovação, porque a criança ainda não tem coordenação e tende a engolir a pasta.
Idosos podem ter dificuldade de movimentos por causa de artrite ou tremores. Cabos mais grossos e escovas elétricas podem facilitar. Próteses removíveis devem ser retiradas, lavadas em água corrente com escova própria e guardadas conforme a orientação do dentista. Usá-las sem limpeza favorece feridas e fungos. E a gengiva e a língua continuam precisando de limpeza, mesmo sem dentes.
Perguntas frequentes
De quanto em quanto tempo devo ir ao dentista?
A frequência depende do risco de cada pessoa. Muitos pacientes são atendidos a cada seis meses, mas o dentista pode indicar outro intervalo. Pelo SUS, a porta de entrada são as equipes de saúde bucal das unidades básicas.
Mau hálito tem solução?
Quase sempre sim. A causa mais comum é a própria boca: resíduos na língua, gengivite, cáries ou boca seca. Melhorar a limpeza da língua e usar fio ajuda. Se o problema persistir, peça uma avaliação ao dentista, que poderá investigar outras causas.
Limão e bicarbonato clareiam os dentes?
Evite. O limão é ácido e ataca o esmalte, e o bicarbonato usado de forma frequente pode ser abrasivo. Clareamento precisa de avaliação profissional.
Quando a dor ou o inchaço são motivo de urgência?
Procure atendimento rápido em caso de dor forte, rosto inchado, febre, ferida que não cicatriza na boca em duas semanas ou manchas brancas e vermelhas persistentes. Inchaço com dificuldade para engolir ou respirar é uma emergência.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um cirurgião-dentista.
