
Para que o frevo se torne o coração do Carnaval de Pernambuco, os músicos das orquestras precisam dominar essa dança vibrante que embala as multidões. O frevo, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, foi celebrado com uma data especial no dia 9 de fevereiro. Mas como se prepara alguém para tocar essa música que é essencial para a folia?
Uma resposta pode ser encontrada no Grêmio Musical Henrique Dias, localizado entre as ruas do Amparo e Treze de Maio. Sendo a primeira escola profissionalizante para músicos de orquestra em Olinda, o Grêmio tem uma história de 72 anos e já foi o ponto de partida para várias gerações de músicos e maestros que fazem o carnaval da cidade acontecer.
Um exemplo é Lúcio Henrique, que ingressou na escola em 1988, aos 10 anos. Hoje, ele é diretor musical e professor. Lúcio ensina teoria musical e solfejo, que são os fundamentos iniciais para quem quer se tornar um músico de frevo. O aprendizado na Henrique Dias abrange também um mergulho na cultura popular pernambucana, além das técnicas musicais.
“O início é parecido com qualquer curso de música: aprendemos valores melódicos e rítmicos. Mas aqui, os alunos também conhecem a cultura do frevo, da ciranda e do maracatu”, explica Lúcio. Antes de tocar qualquer instrumento, todos os alunos começam com a flauta doce para consolidar o que aprenderam.
Após dois meses de aulas, os estudantes passam a tocar instrumentos específicos de sopro ou percussão, com foco nas lições técnicas. O frevo continua sendo a linha mestra do aprendizado, e, em um ano, eles já podem integrar a Orquestra Experimental Henrique Dias, conhecida como Orquestra Jovem. Este é um espaço onde os alunos fazem suas primeiras apresentações em eventos menores.
A experiência na Orquestra Experimental pode levar à inclusão na orquestra principal do Grêmio, responsável pelos grandes eventos do carnaval na cidade. Guilherme Roberto, de 15 anos, fez parte da orquestra oficial, levando seu saxofone para as ruas no carnaval do ano passado. “Fiquei muito nervoso quando passei para a orquestra maior. Tinha medo de errar, mas tive apoio dos meus amigos e dos meus pais”, compartilha Guilherme, que se apresentou em grandes cortejos como o “Eu Acho é Pouco” e o “Cariri Olindense”.
Os desafios de se tornar um músico de frevo são vários. Guilherme menciona dois principais: o fôlego necessário para tocar seu instrumento e a memorização das complexas músicas de frevo. Seu primeiro desafio foi tocar “Canhão 75”, de Nino Galvão. “Decorar não é suficiente; é preciso praticar. Depois do carnaval, eu esqueci algumas coisas e precisei reaprender”, reconhece.
As aulas para novos alunos na Henrique Dias começam assim que o carnaval termina. A escola está aberta para jovens de 9 a 17 anos e promove uma formação que une conhecimento musical e amor pela cultura popular. Guilherme, por exemplo, se aproximou do frevo na Henrique Dias, algo que não fazia parte de sua rotina.
A maioria dos alunos vem do Sítio Histórico de Olinda e de periferias vizinhas, e muitos enfrentam vulnerabilidades sociais. A escola busca apoiar esses jovens, incluindo a obtenção de instrumentos. “Cerca de 70% dos alunos não têm instrumentos. Quando conseguimos alguns, emprestamos, mas também conversamos com os pais para tentar encontrar soluções com instrumentos usados”, conta Lúcio.
Agora, a Henrique Dias se prepara para mais uma maratona de ensaios e apresentações durante o carnaval. Os músicos, jovens e veteranos, já estão em ritmo de trabalho intenso. Para estar prontos, eles cuidam de se alimentar bem, beber água, usar protetor solar e estar descansados. Assim, eles se preparam para ser parte dessa grande festa que é o Carnaval de Olinda, reconhecida como uma das mais surpreendentes do mundo.

