|
A convivência com a dor, o crime ou com a corrupção pode virar rotina. E nos tornar humanos menos sensíveis. Só isso pode explicar nossa realidade. As pessoas perderam o juízo. Valorizam detalhes fúteis e tem repulsa por aquilo que deveria ser o centro dos fatos.
É a banalização dos valores, dos ideais e dos pilares de nossa própria sociedade.
Frei Betto compara o fato contrastante ao torturador que espuma de ódio de sua vítima, “agride-a, cospe nela, aplica-lhe choques elétricos, enfia-a de cabeça pra baixo na latrina” e, no fim do expediente, volta pra casa, beija a mulher, afaga as crianças e passeia com o cachorro.
Para suportar a tragédia, procuramos revesti-la de comédia, diz o escritor. Tudo se carnavaliza e se banaliza a ponto de se promover a inversão do enfoque: danem-se os valores e ideais. “O que importa mesmo é a privacidade da dançarina do tchan”, ironiza.
Enquanto isso, nas ruas, tropeçamos em mendigos e cruzamos com crianças abandonadas.
Na TV, a violência, a injustiça e a crueldade ganham espaço e esse desserviço não é visto como um prejuízo à sociedade. Na área política, somos moldados a acreditar que todos os políticos são malandros e que não há nada mais a ser feito para colocar o trem nos trilhos.
“Mas nada disso tira o nosso sono ou provoca indignação”, aponta Frei Betto.
Nada disso tem valor, pois tudo já faz parte da nossa rotina e, de certo modo, nada tem a ver conosco, não é? Então, melhor nos recolhermos à nossa vidinha privada, indiferentes a tudo e deixarmos que as coisas sigam como estão. Temos circos mais atrativos para olhar e dar risada.
Por Guilherme Gandini, jornalista e assessor de comunicação da Prefeitura de Catanduva
Voltar
|